27/09/2014 - 17:49
(des) Conecte-se

Elizânia Azanha *

Você já viu aquela cena em que estão na sala, pai, mãe, filhos e cachorro, cada um com seu respectivo dispositivo eletrônico? E aquela em que há vários amigos ao redor de uma mesa, dentro de um bar, cada qual com seu aparelho celular, conversando ou “teclando” com outrem que não esteja presente? E, ainda, aquela em que marido e mulher encontram-se na cama, e cada um olha e sorri para seu respectivo smartfone? Se alguma dessas cenas lhe parece familiar, talvez você esteja precisando desconectar-se.

Não me entendam mal! Não sou contra qualquer modernidade tecnológica, ao contrário, sou fã incondicional da tecnologia! Acho incrível como alguém conseguiu permitir que eu seja capaz de, com um clique, falar com alguém que está do outro lado do oceano, olhando para ele, através de um aparelho que cabe em minhas mãos (lembro-me de Speed Racer, e aquilo parecia impossível há algumas décadas...). Mas tenho a sensação de que deixamos esses eletrônicos dominarem nossas vidas.

Tenho observado, cada vez mais, uma dependência generalizada nesses dispositivos, qualquer que seja o lugar onde se esteja há sempre alguém utilizando um smarfone enquanto outras pessoas estão ao seu redor, sendo ignoradas. E, algumas vezes, essa pessoa sou eu... Em ambas as situações (o que mais me incomoda). Já me vi, confesso, dando mais atenção para o meu celular do que para alguém com que eu esteja, e isso tem me deixado preocupada. Até que ponto, realmente, precisamos desses aparelhos ao nosso lado em período integral? Você já se fez essa pergunta? Eu já, e estou me convencendo de que a resposta é: pouco; talvez, quase nada.

Estudos comprovam que a maioria das pessoas só consegue se concentrar em uma atividade por vez (e são pessoas absolutamente normais), o que significa que, quando tentamos falar pelo Whats ao mesmo tempo que ouvimos o que um amigo nos diz, um dos dois não terá nossa plena atenção: ou ignoramos parte da conversa virtual, ou parte da presencial. Uso-me, mais uma vez, como exemplo: sou do tipo que faz várias coisas ao mesmo tempo, e sempre justifico com a célebre frase “sou mulher”, mas admito: quando o assunto é importante, ouço apenas um! Sou capaz de pedir para quem está próximo, tentando falar comigo, que espere um pouco até eu concluir um email, antes que possa ouvi-lo, pois, caso contrário, perderei parte do que for dito. O que isso significa? Sou normal! E, por isso, só consigo fazer uma atividade por vez, ser mulher não me garante poderes especiais (embora às vezes eu os deseje...).

Agora, fico me perguntando quanto de uma aula é capaz de reter um garoto de 16 anos que, enquanto ouve (supostamente) o que diz o professor, troca mensagens com outrem (sabe-se-lá-quem) usando um de seus dispositivos eletrônicos. Será mesmo que ele consegue compreender o conteúdo de uma aula nessas condições? E, então, elaborei duas hipóteses: primeira, sua geração sofreu uma mutação genética, graças ao processo adaptativo da espécie humana (os dedos deles digitam no celular muito mais rápido que os meus), e, sim, ele é capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo; segunda, ele perdeu parte do que o professor explicou, afinal, a mensagem eletrônica era muito mais interessante. Se a primeira hipótese se confirmar, ótimo, estamos formando gênios.

Caso contrário, estamos formando alunos despreparados, porque perderam parte significativa dos conteúdos ensinados na escola. Se houver alguém imaginando que meu desejo seja que todos se desconectem, errou. Desejo apenas que saibamos o momento adequado de se conectar, mas também de desconectar-se. Quantas descobertas incrivelmente maravilhosas tornaram-se possíveis antes que os smartfones fossem inventados? Quantas festas incríveis aconteceram antes da internet? Quantos amigos compartilharam bons momentos antes que as redes sociais passassem a existir? Muitos de nós nascemos porque houve um breve momento íntimo, sem que fosse necessário um dispositivo tecnológico (e outros graças à tecnologia médica, mas principalmente, em virtude do desejo de duas pessoas tornarem seu amor visível). Acreditemos: podemos desligar por algumas horas nossos celulares e nossas vidas correrão normalmente, aliás, talvez com mais qualidade.

 

* Mestre em Linguística, é professora de Português há 12 anos, atuante no ensino privado. É proprietária da escola de idiomas Grow Up






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