16/03/2015 - 14:49
“O outro só faz comigo o que eu permito.” SERÁ?

Marta Padoveze

Recentemente, em um jornal local, havia uma notícia sobre o aumento da violência contra as mulheres da região e as possíveis razões para esse aumento. A reportagem dizia que muitos dos crimes não eram planejados, pois foram cometidos sob o efeito de drogas lícitas ou não.

Então, uma psicóloga emitindo seu parecer, disse que “ninguém faz comigo aquilo que eu não permito”.

Pois é...

Já não é a primeira psicóloga que escuto e usa essa frase para dizer que nossas infelicidades são frutos de nossas escolhas (concordo em parte), e que as pessoas só nos magoam se nós permitimos.

Então, se alguma mulher andando pela rua sofre um ataque, seja sexual ou não, a culpa é dela porque ela “permitiu”, pois saiu sozinha à noite

Se uma jovem, usando minissaia recebe “elogios” de pessoas que nunca viu, é de responsabilidade dela também?

Epa! Disso, discordo mesmo!

Muitas pessoas se mostram quase que perfeitas, e enganam o outro.

No Rio Janeiro, em fevereiro de 2015, a noiva filma o noivo agredido os cachorros. A dona dos cachorros desconfiou do medo que os animais tinham ao chegar perto do rapaz e resolveu conferir. E faltava pouco tempo para ela se casar. Na frente dela e da família, ele era um santo. Como é que se pode afirmar que só fazem comigo o que eu permito?

Outro exemplo que as pessoas fazem conosco aquilo que nós não permitimos, é quando a mulher, depois de sofrer violência ou por simplesmente não querer continuar o relacionamento, decide rompê-lo, porém o companheiro a persegue de várias maneiras. Muitos ainda, ao descobrir que a mulher está namorando novamente, cometem a máxima violência e matam tanto a mulher, quantos os filhos dos dois!

Muitas mulheres, depois de suportar muito abuso, seja emocional ou sexual, de sofrer tanta violência física, encontram-se em tal estado de fragilidade que não têm forças para sair da condição em que se encontram; não têm ânimo para dar um fim a esse comportamento que as destrói; não têm nem mesmo, apoio de familiares para denunciar seu algoz

Claro que esse tipo de situação, não ocorre apenas com as mulheres. Em Sumaré, também em fevereiro de 2015, um motorista de 39 anos, após romper com a namorada, teve todas as roupas queimadas e o carro roubado pela ex-namorada após ela ver a foto do ex com amigas, no Facebook. A mulher ainda enviou mensagens de ameaça de morte e que iria queimar o carro dele.

São histórias que provam que a violência acontece independentemente da nossa vontade ou permissão.

A vítima já sofreu violência, humilhação, ameaças e ainda tem que escutar um “profissional” dizer que a pessoa permitiu que tudo isso acontecesse? Só dizendo mesmo: me poupe, vá! Poupe-me desse parecer destrutivo, dessa fala que menospreza o sofrimento do outro.

Profissional, sabia escolher suas palavras, pois elas têm poder sobre pessoas. Uma vítima de violência, ao escutar que “os outros fazem comigo aquilo que eu permito”, pode ainda se sentir mais enfraquecida.

Você, pessoa, mulher ou homem, que sofre de violência, reconheça primeiramente que tem esse problema. Depois, busque ajuda. Denuncie, fale, comunique a alguma autoridade ou a alguma pessoa que possa lhe ajudar. Peça amparo. Tente se fortalecer.

Mas não aceite que a violência que você sofre é culpa sua. Você não permitiu isso.

 

* Marta Padoveze é professora de idiomas (Inglês, Espanhol e Português) e assessora parlamentar

 

 

 






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