E quem vai defender a caderneta de poupança?

E quem vai defender a caderneta de poupança?

Por Marcos Fontes 22/07/2016 - 18:37 hs
E quem vai defender a caderneta de poupança?
Marcos Fontes, administrador e especialista em Finanças Corporativas

 

Com o objetivo de ampliar a renda das classes mais populares, a caderneta de poupança foi criada no Brasil por D. Pedro II, sendo legitimado pelo decreto nº 2.723, de 12 de janeiro de 1861.


Alguns fatos pitorescos da história da caderneta, caracterizada como Instituição, estão atreladas à própria história do Brasil. Ainda na época da escravatura, 1872, foi permitido que os cativos pudessem guardar seu dinheiro, facilitando o processo de alforria, desde que poupassem em nome do senhor do escravo. A Caixa Econômica Federal, na época intitulada Caixa Econômica da Corte, foi constituída inicialmente para prestar dois tipos de serviços, a poupança e os penhores. O primeiro, visava a aplicação e o retorno com lucros, o segundo, objetivava o dinheiro emergencial.


Foram diversos fatos marcantes. Em 1915, passava a ser uma atribuição do governo estabelecer as regras para o rendimento da poupança. Nesse mesmo regulamento, a mulher casada ganhou o direito de abrir uma caderneta, desde que não houvesse oposição do marido. Em 1964 foi adotada a correção monetária e, com isso, houve o aumento da confiabilidade da poupança, pois o dinheiro estava livre do risco da desvalorização. Em 1968 aprovou-se a lei de vinculação com o financiamento da casa própria. A partir de então, parte do dinheiro guardado nesse tipo de investimento era utilizado pelos bancos para o crédito imobiliário. Em 1990, o confisco governamental da poupança, por meio, do Plano Collor, abalou a credibilidade como instituição 100% segura e garantida. Ainda nesse século, houve as mudanças de remuneração trimestral para mensal e finalmente em 2012, as novas regras de remuneração atreladas à taxa básica de juros nacional, mantendo a condição econômica de principal fundo para o crédito imobiliário.


A instituição poupança também esteve atrelada ao saudável hábito de poupar para ter. Comunicando sempre às diversas faixas etárias, enraizando ainda mais na cultura brasileira a ideia de poupar, ocorreu nos últimos anos a infantilização dos comerciais da poupança. Toda esta história rica da poupança parece ter sido esquecida pelo governo, instituições financeiras, incluindo a própria “mãe” Caixa, nos dias atuais. Analistas econômicos, gestores financeiros e comentaristas do mundo das finanças insistem em comparar esta instituição com alternativa de investimento.


A sabedoria popular parece que vem resistindo a esta campanha articulada na mídia financeira: extinguir uma das últimas instituições confiáveis que o país possui. Afinal o montante de depósitos ainda sustenta valor considerável de quase R$ 640 bilhões, segundo dados do Banco Central. Na matéria do Valor Econômico, publicada em 07 de julho, com o título “Poupador acelera saque e tira R$ 43 BI da caderneta no ano”, a jornalista destaca os saques acumulados elevados sem analisar com mais acuidade a sazonalidade do gráfico das variações líquidas de saldo. A sazonalidade mostrada em três períodos, 2013 a 2016, no mesmo gráfico indica que no primeiro semestre destes anos ocorreu quantidade de saques muito superiores aos depósitos e que esta tendência vem se revertendo no segundo semestre. Claramente também é visível o efeito da crise econômica e financeira das famílias de menor renda nestes últimos anos.


Isto tudo se explica com os mais de 60 milhões de cartões de débito atrelados à velha e boa caderneta de poupança. Número que deve subir com a estratégia da Caixa de utilizar o cartão de debito para os assistidos de programas sociais.


O que queremos concluir com estes números é que a poupança continua sendo querida, acessível, fácil de operar e continua no gosto do público, como alternativa de poupança popular. Inútil e quase fruto de ignorância a comparação com as aplicações do Tesouro Direto, que também vem aceitando pequenos valores de investimento. Como convencer camadas mais populares através de simples argumento, como rentabilidade, abrir uma conta corrente em banco, pagando tarifas mensais, tendo que buscar orientação de corretores, se a velha e boa poupança oferece comodidade e segurança através do cartão de débito, isento de tarifas e saldo líquido utilizado diretamente em qualquer maquininha de cartões do varejo.


Não entendemos também como não existe atualmente a defesa institucional e promocional deste funding, dos agentes promotores do crédito imobiliário, nos segmentos de renda do SFH - Sistema Financeiro da Habitação.


Os mais saudosistas que presenciaram um pouco da história da poupança, sentem a falta de pessoas, instituições e até do governo defendendo esta instituição, que ainda desfruta de gosto e apelo popular, desde a sua criação nos tempos do Império, que se atualizou nos tempos do consumo e da tecnologia da informação, apesar da intensa propaganda negativa.

 

Marcos Fontes é Mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas, com MBA Pleno, especialista em Administração pela Ohio University. Especialista em Finanças Corporativas e Tecnólogo em Processamento de Dados pela UNISAL. Com experiência profissional consolidada no cargo de Gerente Regional da Caixa Econômica Federal na RMC (Região Metropolitana de Campinas) onde coordenou o processo de crédito imobiliário. Aposentado após 32 anos de trabalho na Caixa, hoje atua com consultoria na empresa Habitaz – Negócios Imobiliários a Incorporadoras e Construtoras.