Analgésico Esférico

Analgésico Esférico

Por Francisco Habermann 13/06/2018 - 12:12 hs
Analgésico Esférico
Francisco Habermann é professor aposentado da Faculdade de Medicina de Botucatu


 

A história se repete. Nesta semana de abertura da Copa os olhos mundiais se voltam para a Rússia, um país que esconde enorme população vivendo abaixo do nível de pobreza. Como aconteceu aqui, enorme investimento faz parecer o que não é ou o que não tem. Sugere, como sempre, ser oportunidade de visualização política.


A experiência brasileira é amargamente sentida por todos até hoje. Ficamos com os saldos negativos da aventura dita esportiva. Digo assim não para desestimular o entusiasmo coletivo, mas para sugerir reflexão diante de tantos problemas nacionais que emergem a cada dia em nossas vidas. Algo se esconde ainda aos nossos olhos de simples torcedores inocentes ( ou bobinhos ) que somos. Cito alguns.


A enorme disputa pelos direitos de transmissão, envolvendo milhões; a escancarada e bilionária disputa de patrocinadores que anunciam seus produtos sem nenhum cuidado com a saúde populacional; as enriquecedoras permutas prévias de jogadores entre clubes trilionários; os escândalos já descobertos envolvendo inúmeras personalidades do meio futebolístico brasileiro e internacional. A lista é cansativa.


E, ainda assim, estaremos interrompendo nossas atividades cotidianas para pregar os olhos lá na tela mágica da TV e acompanhar os nossos milionários ‘ídolos’. Parece brincadeira.


Para falar a verdade, sinto que merecemos mesmo este intervalo diante de tantos problemas nacionais que enfrentamos no dia-a-dia. Acho até que a bola rolando no campo funciona como um santo analgésico para nossas dores de cabeça. É sensação esquisita, mas é assim que funciona com nosso povo. Acalma-nos. Isso seria suficiente? Voltaríamos mais dispostos após?


Não vejo problema na torcida, só acho que convém pensarmos bem nos nossos tão desejados êxitos outros que aguardam solução aqui nesta terra. Especialmente se tivermos a oportunidade de vencer um adversário ( com a bola esférica ) por sete a qualquer coisa. Seria, então, a nossa glória?


Ainda assim, resta uma pergunta perturbadora. E as outras modalidades esportivas?  Teriam o mesmo entusiasmo nacional? Hummm!


É melhor deixar a bola rolar... pois gostamos de ser auto iludidos.

Goool!

 

fhaber@uol.com.br