Brumadinho

Por José Antônio Picelli Gonçalves 30/01/2019 - 11:43 hs
Brumadinho
José Antônio Picelli Gonçalves é engenheiro civil e presidente da AEAS

O cantor e compositor José Augusto, ao lançar em  1973, o seu primeiro disco “De que vale ter tudo na vida”, não imaginaria que o mesmo, sendo devidamente parafraseado e enfocado,  ilustraria os sentimentos de decepção e impotência, que tomou conta de nosso coração: 

Nada mais importa agora

Você foi embora

Eu fiquei tão só

Sigo sem saber meu rumo

Eu não me acostumo

Sem você aqui

 

De que VALE ter tudo na vida

De que VALE a beleza da flor

Se eu não tenho mais teu carinho

Se eu não sinto mais teu calor…

 

Ao depararmo-nos em pleno início de ano com a tragédia previamente anunciada, dando azo ao que escreveu em seu livro, a jornalista  Cristina  Serra,  “Tragédia  em  Mariana  -  A  história  do  maior desastre ambiental do Brasil”, onde tudo se repete, em verso e prosa e por que não dizer, passam pelas memórias dos brasileiros o mesmo filme, com o mesmo enredo, onde não há um final e, muito menos, feliz. 

   

Perguntamo-nos, então: “O que  VALE  a  VALE?  De  que  VALE  a VALE? Ou, quanto VALE uma VIDA? Quantos metros cúbicos de resíduos minerais  são necessários para, envolvendo um  corpo com essa lama gosmenta, arrastar uma vida à inanimidade?    

 

O papel das  entidades  de  classe  nesta  complicada  questão  de irresponsabilidade visceral, mais especificamente os CREAs brasileiros, no caso,  o  do  Estado  de  Minas  Gerais,  é  que  se  proceda  a  uma  fiscalização  acurada  e precisa,  visando  apurar  as  questões  técnicas mais relevantes  no procedimento do acúmulo destes resíduos de mineração em barragens que se revelaram instáveis e de nenhuma valia a não ser a de uma bomba relógio. 

 

Dito de outra  forma,  um  enorme acúmulo  de  Energia  Potencial,  prestes  a  transformar-se  em  Energia  de Movimento, varrendo e enterrando o que houver pela frente. Neste momento o  mundo  está  totalmente  focado  nas  buscas  dos possíveis sobreviventes e das pessoas desaparecidas no trágico rompimento da Barragem de Brumadinho no estado de Minas Gerais. 

       

Não esquecendo esses trabalhos  de  buscas  não  podemos  deixar  de cobrar  os  verdadeiros  responsáveis  pelos  projetos  e  pela  execução  das barragens,  lembrando  que  há  três  anos  tivemos  o  rompimento  de  outra barragem  e  até  o  presente  momento  os  habitantes  de  Mariana  ainda  não foram totalmente ressarcidos de seus bens e prejuízos.      

  

A Vale com certeza tem em  seu  quadro  de  funcionários  e  diretores, pessoas técnicas e qualificadas, para darem uma resposta à população e aos órgãos competentes pela fiscalização.


Por outro lado, se faz  necessária  uma  investigação  junto  aos  órgãos responsáveis pela análise e aprovação dos projetos das barragens e se estas liberações eram feitas por técnicos capacitados ou não.


Enfim, onde não há transparência é sinal que algo estranho existe, e onde não há punição para os envolvidos significa que o ser humano não teme nada e, portanto, não tem interesse em trabalhar honestamente, embora não seja seu dever e, sim, obrigação.


Esperamos que realmente haja a transparência dos  fatos,  bem  como,  a  responsabilização  dos  verdadeiros culpados.  Lutemos para ter tudo na vida, vamos contemplar a beleza da flor…
 
 
 
José António Picelli Gonçalves é engenheiro civil e presidente da AEAS (Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Sumaré)