Envelhecer é construir história

Por Maristela Negri 21/02/2019 - 09:39 hs
Envelhecer é construir história
Maristela Negri Marrano, pós-graduada em Neurociências e diretora da CLAP

 

Sabe quando nas suas férias você resolve arrumar os armários da casa? Pois bem, no meio da arrumação reencontrei o livro “O Gênio e as Rosas”, de Maurício de Souza e Paulo Coelho, e me deparei com a história: Ana Cintra conta que seu filho pequeno, com a curiosidade de quem ouviu uma nova palavra, mas ainda não entendeu seu significado, perguntou-lhe: - Mamãe, o que é a velhice? Na fração de segundo antes da resposta, Ana fez uma verdadeira viagem ao passado. Lembrou-se dos momentos de luta, das dificuldades, das decepções. Sentiu todo o peso da idade e da responsabilidade em seus ombros. Tornou a olhar para o filho que, sorrindo, aguardava uma resposta. – Olhe para meu rosto, filho. Isto é a velhice. E imaginou o garoto vendo as suas rugas e a tristeza em seus olhos. Qual não foi sua surpresa quando, depois de alguns instantes, o menino respondeu: - Mamãe! Como a velhice é bonita!

 

Complementando a história, trago a música de Gonzaguinha “Feliz”: Viver e não ter a vergonha de ser feliz [...] a beleza de ser um eterno aprendiz [...] eu sei que a vida podia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita.  Os artistas nos  revelam: a vida é bonita e a velhice também. Portanto, envelhecer é beleza, porque é viver e vice-versa.

 

Viver é construir história, trilhar caminhos possíveis, pois somos constantemente desafiados pela vida. Ela é dinâmica, um processo contínuo de transformações. Sabemos que essa etapa é multifacetada e heterogênea. Não tenho como objetivo neste momento tratar dos preconceitos, violências e discriminações sofridos ainda por muitos idosos, apesar de ter consciência dos inúmeros problemas relacionados ao envelhecimento, mas, sim, reconhecer a possibilidade que temos em  seguir um caminho possível de chegar à última fase da vida com autonomia, independência, mais plena e feliz.

 

Para tanto, faz-se necessário deixarmos de associar essas transformações, modificações apenas nas mudanças corporais que acometem o ser humano em seu processo de envelhecimento. Nesta concepção, a velhice deixa de ser bela, pois o ideal estético se faz sobre o corpo jovem, este sim, acreditam alguns, dotado de beleza, vigor e saúde.

 

A sociedade classifica e determina, negativamente, pelo corpo, o que é ser velho. A atriz Betty Faria foi muito criticada e chamada de “velha baranga” por usar biquíni aos 72 anos e prontamente respondeu: “Querem que eu vá à praia de burca, que eu me esconda, que eu me envergonhe de ter envelhecido?

 

Um novo tempo, uma nova realidade! Cada um faz suas próprias escolhas de usar biquíni, maiô, amarelo, vermelho, minissaia, calça jeans, namorar ou  não namorar, enfim, o que mais importa não é o que usar, o que fazer e sim ter a consciência de que somos cada vez mais livres e conscientes para as escolhas de como viver e envelhecer.

 

Somos eternos aprendizes e a beleza está justamente na singularidade de cada ser, em seus desejos, escolhas, amizades, paixões, medos, alegrias e projetos de vida. A velhice é uma fase da vida repleta de descobertas, vamos nos permitir. “Não  há tempo que volte amor, vamos viver tudo o que há para viver”, assim nos embala Lulu Santos.

 

Fica a reflexão: O que estamos dispostos a fazer para termos uma “velhice bonita”? Até mais!

   

Maristela Negri Marrano é sócia-diretora do Centro de Longevidade e Atualização de Piracicaba (Clap), pós-graduada em Neurociências aplicadas a Longevidade – UFRJ e mestre em Educação Física pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Contato:maristela@centroclap.com.br