Da lima da pérsia à consciência da finitude da vida

Por Maristela Negri 15/05/2019 - 17:47 hs
Da lima da pérsia à consciência da finitude da vida
Maristela Negri Marrano, pós-graduada em Neurociências e diretora da CLAP

 

Nesta semana, junto à minha mãe, resgatei momentos especiais vividos com ela quando sentávamos embaixo da limeira-da-pérsia e apreciávamos as mãos alvas e delicadas dela ao descascar as frutas para mim, meus irmãos e primos. Crianças, não sabíamos ainda definir seu gosto exato. Tinha um sabor menos ácido, no finalzinho um gostinho amargo, por isso não era apreciada por todos.


Essa lembrança veio, porque ela mencionou que fazia tempo que não chupava lima da pérsia. Foi um link para que eu resgatasse essa memória e juntas revivêssemos momentos gratificantes na fazenda de meu avô. Após esse resgate ela falou: “Nossa, como o tempo passou. Já estou com 87 anos, é bastante, né? Todas as manhãs, eu acordo e penso: acordei, estou viva”. Então, eu perguntei: “por que a senhora pensa isso”? Ela, no auge de sua sabedoria, respondeu: “a única certeza que temos é a chegada da morte, só não sabemos exatamente como e quando virá. Mas, com o passar dos dias, a morte fica mais próxima. Então, quando eu acordo, fico feliz que ainda estou viva”.


Prosseguindo nosso diálogo, eu perguntei: “Mãe, a senhora tem medo da morte”? Ao que ela respondeu: “não, não tenho medo da morte, porque Deus sabe a hora de todos nós. Todos iremos morrer um dia, mas eu gostaria de morrer como um passarinho”. Surpresa com a resposta de minha mãe, continuei com minhas indagações: “Como é morrer como um passarinho mãe”? Resposta: “Ué, que pergunta Maristela! Você nunca viu um passarinho morrer? Ele está voando e, de repente, ele morre”.


“Ele está voando e, de repente, ele morre”. Para mim, foi o máximo. Estamos vivendo e de repente morremos, mas no morrer como um passarinho está implícita a morte repentina, sem sofrimento, independente de como tenha sido a nossa vida, feliz, triste, sofrida, solitária, com muita gente.


De acordo com a médica Ana Claudia, em seu livro: “A morte é um dia que vale a pena viver”, enquanto não olharmos para a morte, não conseguiremos ter uma vida plena. Ela também nos esclarece que o verdadeiro herói é aquele que reconhece a morte como sua maior sabedoria, e não aquele que quer fugir do encontro com a morte. Reconhecendo a nossa finitude, podemos ressignificar nossas vidas e vê-las de outra forma. A passagem aqui na Terra é breve, precisa de valor, sentido e significado, pois “as pessoas morrem como viveram. Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido”, diz a autora.


Assim como a lima da pérsia tem no finalzinho um gostinho amargo, e por isso não é apreciada por todos, conversar sobre reconhecer a morte, também não é um assunto apreciado por todos e para algumas pessoas, de igual forma, tem esse gostinho amargo, já que a morte vem acompanhada do medo, de emoções negativas, por se tratar de algo desconhecido, configurando-se numa parte do destino humano. Mais uma vez, a médica Ana Claudia nos alerta: “quem diz ter medo da morte deveria ter um medo mais responsável (...). O medo não salva ninguém do fim, a coragem também não. Mas o respeito pela morte traz equilíbrio e harmonia nas escolhas. Não traz imortalidade física, mas possibilita a experiência consciente de uma vida que vale a pena ser vivida”. Pois bem, um diálogo e um livro recheado de muitas reflexões.


Por fim, a questão do tempo é muito bem analisada pela autora, que diz: “o que separa o nascimento da morte é o TEMPO”.


Caro leitores, dentro desse tempo, qual o sentido que estamos dando para as nossas vidas? 


Até a próxima!

 

Maristela Negri Marrano é pós-graduada em Neurociências Aplicadas à Longevidade (UFRJ), mestre em Educação Física (Unimep) e sócia-diretora do Centro de Longevidade e Atualização de Piracicaba (CLAP). Contato:maristela@centroclap.com.br