Vícios que nos desafiam diariamente

Por Alessandra Cerri 30/07/2019 - 16:48 hs
Vícios que nos desafiam diariamente
Alessandra Cerri é professora e sócia-diretora do CLAP

 

Já parou para pensar em todas as tentações que te desafiam diariamente? Percebeu que, em alguns momentos, você é mais forte para resistir a elas, e, em outros, nem tanto?

 

Essas tentações podem vir das mais variadas formas. Os vícios são uma delas, e se caracterizam por gerar uma alteração física, funcional ou emocional.


Dentre as muitas definições nos dicionários online, encontramos uma que diz que vício é a dependência física e/ou psicológica que faz com que alguém busque o consumo excessivo de algo.


Partindo desse conceito, passamos a entender que todos nós somos tentados e, muitas vezes, vencidos por algum tipo de vício, seja por uma substância (doces, bebidas, comida, drogas), coisa ou comportamento (redes sociais, jogo, consumismo, sexo, roubo, roer unha).


Tais “agentes viciantes” fazem parte de nossas vidas por um único motivo: eles dão a sensação de prazer, ainda que momentaneamente. Basta observarmos, por exemplo, o uso excessivo de redes sociais na atualidade, que vem levando pessoas a viverem num mundo paralelo, ou o preocupante aumento do consumo de bebidas e remédios em nossa sociedade.


De uma maneira muito simplificada, a sensação de prazer ativa no cérebro o sistema de recompensa, no qual uma estrutura chamada núcleo accumbens aciona nossas vias dopaminérgicas. Quando sentimos prazer, liberamos a dopamina, um neurotransmissor muito envolvido no controle dos movimentos, humor, aprendizado, concentração, emoção.


Essas vias dopaminérgicas são consideradas mesolímbicas, e sugerem a existência de uma forte relação com nosso sistema límbico, responsável pelas emoções. Mais que isso, indicam que há um trabalho coordenado entre a dopamina e a serotonina.


Quando estamos emocionalmente mais vulneráveis, mais frustrados, apresentamos baixos níveis de serotonina (principal neurotransmissor do bem-estar, da alegria) e ficamos mais propensos a nos “consolar/alegrar” por meio de algum expediente que nos dê prazer e aumente nossa dopamina, como a comida, o celular, a bebida, as drogas etc. Se não tivermos a consciência desse falso poder de consolo, ficamos reféns de tais agentes.


De acordo com Castro (2004): “a inundação dopaminérgica transforma o prazer em dependência, o desejo em compulsão para a repetição, o pensamento em impulso, o tempo no instante da saciedade e na eternidade da falta, o sofrimento em dor intolerável”.


Problemas nos níveis de serotonina estão tão relacionados com os circuitos de recompensa que os neurocientistas Bear, Connors e Paradiso (2010) comentam, inclusive, que um dos principais fatores para os distúrbios alimentares se encontra justamente na anormalidade da regulação dessa substância.


Dentro desse contexto, as melhores maneiras de diminuir nossa vulnerabilidade emocional e, consequentemente, aumentar nossa capacidade para resistir às tentações são: fortalecer nosso córtex pré-frontal (nosso centro executivo responsável pelo raciocínio, planejamento e controle de nossos impulsos) e aumentar a liberação de serotonina, que contribuirá para nossa melhora de humor e sentimento de bem-estar.


Inúmeras pesquisas têm comprovado que a prática regular de atividade física, meditação, estimulação cognitiva constante e convívio pessoal são muito eficazes para nos ajudar a resistir às tentações.


Nossa vida se baseia em inúmeras reações químicas, que acontecem o tempo todo dentro e fora de nossa cabeça. A captação e liberação de elementos que gerem reações positivas e benéficas estão muito mais ao seu alcance do que você imagina. Depende de conscientização e tomada de atitude. Mexa-se!


Até a próxima, namastê!

 

Alessandra Cerri é sócia-diretora do Centro de Longevidade e Atualização de Piracicaba (CLAP), mestre em Educação Física, pós-graduada em Neurociência e pós-graduanda em Psicossomática.