Diferenças entre gêneros

Por Ana Paula Simões 09/08/2019 - 14:30 hs
Diferenças entre gêneros
Ana Paula Simões é médica e professora da Faculdade de Ciências Médicas de SP

 

A maioria dos artigos tradicionais sobre lesões de corrida que dividem por gênero é baseada sobre o "ângulo Q" (quadríceps) que é uma medida de alinhamento patelar global que mede o ângulo entre a linha que se estende da espinha ilíaca ântero-superior até o centro da patela e a linha que se estende do centro da patela até o centro da tuberosidade tibial. As mulheres tendem a ter um ângulo Q maior do que os homens graças a seus quadris mais largos e, em teoria, isso causa um maior estresse (exercem mais pressão) no joelho e na perna.


Há algumas evidências para apoiar essa ideia. Por exemplo, um estudo 1 realizado na Universidade da Colúmbia Britânica, analisou mais de 2 mil lesões de 30 anos de registros. Eles descobriram que os homens tendem a ter mais lesões no tendão e na cartilagem do joelho, enquanto as mulheres tendem a ter mais instabilidade da pelve, fraturas por estresse e síndrome da dor patelofemoral (ou seja, joelho do corredor). A incidência de fraturas por estresse é um lembrete de que existem outros fatores, como densidade óssea, que podem diferir entre homens e mulheres, assim com a síndrome do déficit energético (antiga tríade da mulher atleta).


Naturalmente, o problema com a análise retrospectiva é que você não sabe realmente quais fatores contribuem para as diferenças. Há um fluxo emergente de pesquisas observando coisas como o ritmo e cadência que sugere que os homens são mais propensos sobrecarregar, então talvez os padrões de treinamento expliquem as diferenças de lesões.


Mas os resultados mais atuais nos artigos? Nenhuma diferença significativa na taxa de lesão. As mulheres tiveram 3,66 lesões por mil sessões de treinamento, enquanto os homens tiveram 3,56. Naturalmente, a questão importante é: os estudos realmente detectam a diferença entre homem e mulher? Para as estatísticas, as mulheres tiveram um risco relativo de 1,02 de ter lesões durante o programa em comparação com os homens, com um intervalo de confiança de 95 % muito amplo entre os trabalhos, variando de 0,40 a 2,59. Em outras palavras, precisaremos de muito mais corredores e, talvez, de um período de estudo mais longo, para captar (ou descartar) uma diferença relacionada ao gênero no risco de lesões do que colocar a culpa apenas nos nossos quadris.


Há uma outra maneira que você pode olhar para as diferenças entre homens e mulheres nas lesões de corrida, como visto no segundo artigo 2. Onde foi analisado um grupo de corredores que já estão machucados, e foram comparados a um grupo controle de corredores ilesos e tentado detectar algum padrão dentro do sexo em sua biomecânica durante uma avaliação de marcha em 3D.


O estudo comparou 48 corredores com síndrome da banda iliotibial a 48 controles saudáveis. Comparando-se dentro de cada gênero, as corredoras lesionadas apresentaram maior rotação do quadril do que corredores femininos saudáveis. O mesmo padrão não apareceu nos homens; em vez disso, corredores homens com dor, tiveram maior rotação do tornozelo do que homens saudáveis. Então, enquanto o resultado final é o mesmo, as mulheres desenvolvem essa lesão de uma perspectiva de rotação de quadril enquanto os homens a desenvolvem às custas de rotação do tornozelo e pé.


Uma história semelhante surgiu quando Ferber3 e colegas de várias outras universidades analisaram a dor femoropatelar (isto é, no joelho). Em um estudo publicado no Physical Therapy in Sport, eles descobriram que as mulheres com dor tinham quadris mais fracos do que as mulheres saudáveis, mas os homens lesionados não se comparavam a homens saudáveis. Em vez disso, os homens com dor tendem a ter joelhos mais fracos: O que isto significa é que, se um corredor tem dor, eles devem estar recebendo uma análise específica diferenciada pelo gênero para determinar a causa raiz de sua lesão. A noção tradicional de uma abordagem de 'tamanho único' para avaliação de danos e protocolos de reabilitação não pode mais ser seguida."


Achei isso bastante interessante, porque parece que estamos passando por ciclos em que a mensagem predominante é que quadris fracos, tornozelos fracos, núcleo fraco, pés fracos, etc. causam todas as lesões. É óbvio que a resposta nunca será tão simples quanto uma fraqueza causando tudo, mas o desafio é descobrir qual fraqueza potencial se aplica a quais corredores - porque ninguém tem tempo para fortalecer todas as áreas frágeis possíveis.


O padrão desses estudos sugere que os quadris podem ser mais importantes para as mulheres, contra as pernas para os homens. Muito preliminar, claro, mas interessante considerar e reforçar a idéia que somos diferentes, que as lesões são as mesmas, mas que para analisar e prevenir: vale individualizar!


Referências:
1 - Br J Sports Med. 2002 Apr; 36(2): 95–101. doi: 10.1136/bjsm.36.2.95 PMCID: PMC1724490. PMID: 11916889, A retrospective case-control analysis of 2002 running injuries
2- Scand J Med Sci Sports. 2015 Dec;25(6):744-53. doi: 10.1111/sms.12394. Epub 2015 Jan 26.. Gender differences in gait kinematics in runners with iliotibial band syndrome.
3- Phys Ther Sport. 2015 Aug;16(3):215-21. doi: 10.1016/j.ptsp.2014.11.001. Epub 2014 Nov 20. Comparison of hip and knee strength in males with and without patellofemoral pain.


Ana Paula Simões é Professora Instrutora da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Mestre em Medicina, Ortopedia e Traumatologia e Especialista em Medicina e Cirurgia do Pé e Tornozelo pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. É Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; da Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé, da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte; e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. www.anapaulasimoes.com.br