Educação e Família: parceiros para a vida

Por Elizânia Azanha 11/02/2020 - 21:17 hs
Educação e Família: parceiros para a vida
Elizânia Azanha é professora de Redação


O Ministério da Educação lançou em 2019 um programa voltado a auxiliar pais e cuidadores na árdua, porém inegavelmente prazerosa, arte de ler para as crianças. Na verdade, trata-se de uma tentativa de implantar no Brasil uma prática já bastante defendida em diferentes países do mundo, cujo foco está na participação efetiva das famílias no desenvolvimento da leitura e escrita das crianças de zero a 6 anos, idade que para muitos países marca o início da vida escolar.


Em um livro publicado em 1983 (Family Literacy: Young children learning to read and write – Literacia familiar: aprendendo a ler e escrever na primeira infância – minha tradução), Danny Taylor (indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 2018, doutora em educação com amplos estudos que envolvem psicologia, antropologia, sociologia e educação) defende a importância da participação dos pais no processo de aprendizagem da leitura e escrita das crianças. E, é nesse sentido que vai o atual programa “Conta pra mim – guia de literacia familiar”.


É incrível o prazer de ver os olhos de uma criança querendo saber o que vai acontecer depois... Prazer que tive na minha infância, quando meu pai ou minha mãe liam para mim e para minhas irmãs, prática que eu julgava ser comum em todos os lares, vista a pouca educação institucionalizada de meus pais, porém o grande empenho em fazer de nós (quatro meninas) leitoras. Mas, para meu espanto (e tristeza), encontro hoje, no ensino médio, alunos que não têm lembrança de seus pais lendo para eles quando pequeninos. Quanto se perde quando não se cria o hábito da leitura?


Daniel Pennac (escritor francês e professor de literatura) questiona em seu livro “Como um romance” o porquê de um adolescente que se deleitava com as leituras da mãe na infância não gostar de ler quando já tem idade para tal prazer sozinho. Agora eu questiono: se aquele que sentiu o prazer das leituras em voz alta na infância, cria certa aversão aos livros quando pode lê-los, qual será então o resultado para todos os pequeninos que nunca tiveram esse prazer?


E a minha resposta, inconclusiva, claro, é que dependerá de outros exemplos, de outros incentivos, ou talvez de alguma necessidade. Todavia, correr risco para quê? Leiamos para nossos pequenos enquanto nossa voz é o som mais suave e doce que ele quer ouvir.


Romantismo à parte, o programa “Conta pra mim”, não quer apenas que leiamos para nossos filhos, mas vê nessa prática uma forma de educá-los em casa às práticas da leitura e da escrita, e não delegar unicamente à escola esse ofício. De fato, cabe à instituição o dever de alfabetizar nossas crianças, contudo tanto mais eficiente será esse processo e, portanto, seu resultado para as crianças que chegarem à escola reconhecendo as letras, porque já lhes é familiar. Numa analogia muito simples, oferecemos arroz às nossas crianças desde que são muito pequenas. Elas reconhecerão, portanto, o arroz em qualquer prato, em qualquer tipo de preparo, assim a elas restará apenas provar e decidir quanto gostam. Agora, ofereça a uma criança de 6 anos um prato de sopa de ervilhas, sem que ela já tenha provado ervilhas, ela sequer crerá que haja ervilhas no prato.


Assim é com as letras, quanto mais as conhecemos, mais confiança temos em usá-las. Na crônica “O gigolô das palavras”, Luiz Fernando Veríssimo defende que nós mandamos nas palavras, e ele tem razão. Entretanto, só manda nas palavras quem as conhece muito bem.

Leiam “Conta pra mim”, enviem aos seus amigos, compartilhem em suas redes sociais, vamos tornar o Brasil mais letrado que nunca, mais literário que nunca, vamos por em prática a literacia, democracia da leitura (minha tradução) porque quanto mais abrangente for a educação, menor será a desigualdade.


Termino com uma saborosa lembrança de minha primeira aula de história, na antiga 5ª série da EEPG “Prof. José Domingues Rodrigues”, na minha querida Santa Bárbara d’Oeste: “não precisamos de diplomados burros, que tiram diploma e o guardam numa gaveta, mas de pessoas inteligentes para fazer esse país melhor” – Prof. Juscelino.


Elizânia Azanha é professora de Redação

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