Alfabetização: uma base sólida para um futuro promissor

Por Elizânia Azanha 20/02/2020 - 17:17 hs
Alfabetização: uma base sólida para um futuro promissor
Elizânia Azanha é professora de Redação


 Na última terça-feira, 18, o MEC fez o lançamento do novo programa de alfabetização, que está sendo chamado Tempo de Aprender. Trata-se de mais uma tentativa do governo federal para garantir que todas as crianças estejam alfabetizadas até os 8 anos de idade.


Sou do tipo que sempre vê o copo meio cheio. Não costumo dizer “não vai dar certo” antes de testar, ao contrário, sempre vejo nas mudanças motivação para fazer dar certo, mas quando o assunto é alfabetização brasileira, penso que são necessárias algumas ponderações.


Viemos de um passado recente em que apenas a elite tinha o direito de saber ler e escrever, há menos de um século as escolas se tornaram populares (não me refiro à noção de pública, mas sim ao direito popular de frequentá-las). Para deixar mais claro, em especial aos mais jovens, até a década de 70 havia provas para que um aluno do atual 5º ano pudesse dar continuidade aos seus estudos em uma escola pública, o então teste de admissão. Claro que grande parte das crianças ficavam de fora, quer por não terem bons resultados (já que não podiam pagar pelo preparatório), quer pela necessidade de deixarem a vida escolar para trabalhar e ajudar suas famílias com o pouco que ganhavam.


Muito se conquistou desde então. Já na década de 80 a escola pública fundamental tornara-se uma obrigação do Estado, que garantia vagas, qualidade já é outro assunto. Todos da minha geração, os nascidos no final da década de 70 e avançamos a de 80, tivemos acesso garantido à escola pública, mas, infelizmente, vimos junto o declínio da qualidade de ensino dessa gigante instituição. Sendo educadora, é para mim um grande pesar admitir tal fato.


Onde a qualidade se perdeu? Por que ela se perdeu? Onde estão os mestres de outrora, aclamados e respeitados por toda a população? Infelizmente, escondidos porque sua profissão já não brilha mais, ou nas escolas particulares, que, em certa medida, remuneram melhor os professores.


Trata-se, então, de uma questão salarial? Sim! Muito me entristece quando ouço um representante do governo ou um diretor de escola privada afirmar que ser professor é uma questão de vocação, é uma missão, sem lhes garantir o mérito econômico que lhes é merecido. Sem dúvida que se escolhe ser professor por amor à prática de ensinar, mas vamos remunerar esses profissionais que tão bem desempenham seu ofício, tal qual consideramos justos os salários dos médicos ou engenheiros, para ilustrar.


Ser professora é a única profissão que desejo ter, ensinar é minha paixão, não é gratuitamente que meus alunos e ex-alunos me emocionam com suas palavras de carinho, quando dizem que faço a diferença em suas vidas, todo educador faz (ou deveria) isso. Mas também tenho contas a pagar no fim do mês, como todos os meus colegas de profissão. Sabem quanto custa um livro? Professor deve ser leitor.


Parte da proposta atual do MEC é oferecer uma gratificação aos professores da alfabetização cujos alunos obtiverem determinado resultado em uma avaliação. Aqui está o erro. Por que em vez de gratificar quem fez bem feito, não oferecemos um salário digno para que todos os professores possam se dedicar exclusivamente ao seu ofício e fazê-lo cada dia melhor?


Ademais, alfabetização não é algo que se possa medir, trata-se de um aprendizado mensurável apenas quanto à sua proficiência. O programa Tempo de Aprender sugere medir o grau de alfabetização dos pequenos (lembremo-nos, 8 anos) verificando quantas palavras eles leem por minuto (sic)! Os da minha geração, lembram-se dos testes de datilografia? Quantos toques por minuto? Oras, eu nunca fui escriturária, tenho certa destreza com as teclas, hoje do meu notebook, mas se houve uma inutilidade na minha vida foi ficar horas treinando aqueles toques. O teste de carta ditada, sem pressa, foi que me rendeu o melhor resultado: um documento impecável, sem nenhum erro, entregue no prazo!


Imagino aquela criança tímida, que não consegue ler em voz alta para a sua turminha de todos os dias, por mais e melhor que saiba ler, fracassará. Alfabetização se mede pela proficiência de cada pessoa. Dê o texto (compatível com sua idade e interesse), deixe-a ler, pergunte sobre o que leu, ouça seus comentários, peça suas opiniões. Isso sim mostra quanto se é alfabetizado. Ou voltaremos ao problema apontado no final do século passado, quando estudiosos se debruçaram em entender o que então passamos a chamar analfabetismo funcional, ou a dificuldade enfrentada por pessoas alfabetizadas que não seriam capazes de compreender aquilo que liam. Em 2003, Magda Soares (doutora em didática e professora titular da UFMG) escreveu um artigo (Alfabetização: a ressignificação do conceito. Alfabetização e Cidadania, publicado na Revista de Educação de Jovens e Adultos) em que ela já defendia a emergência de se estabelecerem novos conceitos na avaliação da alfabetização, os quais deveriam considerar não apenas a destreza em ler e escrever, mas habilidades de leitura e escrita significativas.


Se, de fato, um país se faz de homens e livros (Monteiro Lobato), que esses livros sejam compreendidos pelos homens que os leem. Uma criança alfabetizada não apenas lê e escreve palavras, ela significa seu mundo com essas letras.


O programa ainda é muito incipiente, que o ministério da Educação alcance uma forma de realmente garantir  que todas as crianças estejam alfabetizadas aos 8 anos, lendo, escrevendo e significando o mundo à sua volta.


Elizânia Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com