O que a educação fez por você?

Por Elizânia Azanha 05/03/2020 - 18:42 hs
O que a educação fez por você?
Elizânia Azanha é professora de Redação

Todos os anos, depois de divulgados os resultados do Enem, a mídia brasileira se debruça em mostrar casos de pessoas aprovadas que contrariam as expectativas de grande parte da sociedade brasileira. Ora pela idade, ora pela renda familiar, ora pela simplicidade do local onde mora, ora por todos esses elementos juntos.


Este ano não poderia ser diferente. Viralizou nas redes sociais, além de outras mídias, o caso de um homem paraense, de 60 anos, pessoa humilde, que ganha a vida capinando terrenos e foi aprovado para o curso de Enfermagem da UFPA (Universidade Federal do Pará). Louvável? Sim! Porque esse homem um ano atrás percebeu que só teria uma chance de melhorar sua vida e de sua mãe, uma senhora de 90 anos, se tivesse estudo. Havia a possibilidade de ganhar na Mega... Mas ele percebeu logo que o estudo seria o caminho mais acertado. Porque esse caminho é real, ou deveria ser.


Quantos somos os Alcyres que, acreditando na educação para melhorar a condição de vida, lutamos por conseguir uma vaga nas universidades públicas brasileiras? Ou nas privadas, de excelência, utilizando o Prouni, o FIES, ou qualquer outra bolsa estudantil? Somos milhares e seríamos milhões se as oportunidades fossem mais amplas. Por que então um caso viraliza? Porque temos dificuldade de lidar com nossas dificuldades, porque temos medo da aceitação dos outros, porque, por vezes, não podemos falar de nossas origens sem sermos pré-julgados. Quantos de vocês, caros leitores, identificam-se com a história desse paraense?


Se tem algo que aprendi desde muito criança e faço questão de ensinar aos meus filhos é valorizar nossas origens. Sou bisneta de imigrantes europeus, que para esta terra vieram fugindo de uma guerra ou da falta de emprego gerada por ela. Meu bisavô materno foi esquecido pela família, portugueses que nunca aceitaram o fato dele ter escolhido entrar num navio e partir para uma terra desconhecida a honrar sua pátria alistando-se para a guerra. Muito fizera aqui esse jovem corajoso (ou covarde, aceito ambos julgamentos), trabalhou, comprou terras, poucas, mas o suficiente para criar e educar seus filhos. Mas, não se tornara rico. Todos os filhos trabalharam na lavoura, de sol a sol. Os meninos tiveram a sorte (ou azar, para alguns) de ir à escola, não por muito tempo, mas tempo suficiente para aprenderem a ler, escrever e calcular. Às meninas, e eram a minoria, restou o trabalho... Na lavoura e no lar.


Sou neta de uma dessas meninas, de quem me orgulho muito, mas ela não pode ler ou escrever, calcular aprendera com o pai e os irmãos, porque é preciso saber lidar com o pouco dinheiro que se ganha depois de um longo mês de trabalho. Se não teve a fortuna de nascer filha de pai rico, tampouco escolheu marido rico. Casou-se jovem, com um bom rapaz, filho de imigrantes, trabalhador, honesto. Lutaram muito e criaram seus três filhos, sou filha da segunda, que pode ao menos concluir o ensino primário da época, o equivalente ao 5º ano de hoje.


Aprendi o que era MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) em casa, essa minha avó tentou se alfabetizar nesse programa da década de 80 do século passado, quando eu estava me alfabetizando aos 6 anos de idade. Fazíamos tarefa juntas... Não deu muito certo. Os afazeres domésticos e seu trabalho de 44 horas semanais não contribuíram muito. Mas ela não desistiu. E, aos 70 anos, numa escola para idosos, cujas aulas eram ministradas por uma professora idosa aposentada, gratuitamente, ela finalmente conseguiu ler algumas páginas da bíblia (primeiro sonho realizado) e escrever numa lista os nomes de todos os filhos, genros e noras, netos, bisnetos e agregados. Nunca me esquecerei de seu rosto de glória me mostrando tais feitos.


Nessa mesma época, eu concluía meu Mestrado em uma das maiores universidades públicas deste país, a Unicamp. Não sou um Alcyr? Primeira pessoa, em 4 gerações a concluir um curso superior. Muitos vieram depois e mais virão, com certeza, porque o que de fato recebemos de herança nesta família é a certeza de que a educação nos garante uma vida melhor.


Muito me orgulho da minha história e de  todos esses irmãos brasileiros que lutam todos os dias por uma vida melhor, que acreditam na força que a educação tem para promover mudanças reais em nossa condição, mas também me entristece o fato de que tantos brasileiros e brasileiras ainda não conseguiram esse entendimento. Seja pelas dificuldades enfrentadas diariamente, seja pelo pouco incentivo das gerações anteriores.


Agora a pergunta que não quer calar: por que valorizamos tanto um diploma e tão pouco o conhecimento. Capinar um terreno é uma tarefa muito árdua, trabalho pesado, ao sol, por que tão pouco valorizado? Conseguem imaginar um prédio erguido por engenheiros? Eu só consigo imaginar pedreiros colocando a mão na massa e nos tijolos, não seriam então igualmente importantes seus papéis? Por que tanta diferença salarial? Eu adoraria ter alguém limpando e zelando pela minha casa, mas não posso pagar o que realmente acredito que mereçam. Isso me remete a um texto de Gregório Duvivier, publicado em 2015, em que ele afirma “nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta”.


Talvez, se você pode pagar para lavarem sua privada, esteja me xingando, mas pense um pouco: a questão não é a privada ou a bicicleta, trata-se apenas de uma metáfora para mostrar quanto a grande desigualdade econômica afeta nossas vidas. Não seria maravilhoso que aquele que lava nossa privada pudesse ter à mesa todos os dias a mesma fartura que nós?


Bem, como ainda estamos anos luz de distância dessa realidade, continuemos sendo Alcyres e lutando por mais vagas nas universidades públicas, ou mais programas que tornem o sonho da graduação realidade para toda a população deste Brasil varonil, pois a educação fez muito por mim. Sou professora numa terra em que pouco se valoriza essa profissão, mas realizei muitos sonhos que não teriam se tornado possíveis se eu não tivesse mesmo me apaixonado pela arte de aprender e ensinar.


Elizania Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com