Os sem-futuro

Por Oscar DAmbrosio 20/03/2020 - 12:57 hs
Os sem-futuro
Oscar D´Ambrosio é jornalista e gerente de Comunicação e MKT da Faculdade de Ciências Médicas de SP

Levantamento feito na capital pela empresa Qualitest, a pedido da Prefeitura de São Paulo, mostra um crescimento de 60% dos moradores de rua na cidade em quatro anos (de 15 mil, em 2015; para 24 mil, em 2019). É claro que os números como um todo são significativos, mas o mais impressionante é pensar em cada pessoa individualmente.

Um morador de rua, mais que uma estatística, é um indivíduo. E isso, em hipótese alguma, pode ser deixado de lado.  Cada morador de rua é uma pessoa que, acima de tudo, costuma se enxergar sem futuro. E, quando o mundo vive uma crise, como a atual, na esfera da saúde pública e da economia, amplia-se a reflexão sobre como os sem-teto e sem serviços básicos de higiene serão impactados.

Artistas visuais como Sosek deram a essas pessoas, invisíveis para muitos, uma imagem plástica. Suas obras são resultado de um trabalho de observação e fotografia que resulta numa produção que mescla o grafite com influências orientais. O essencial está na capacidade de transmitir, via talento e sensibilidade, um sentimento de solidão e de abandono que se expressa em posturas e olhares.

Não se trata de dramatizar a questão, além do que ela já é séria em si mesma, ou de torná-la piegas, mas sim de ter consciência de uma realidade que bate à porta e poucos convidam para que entre, se sente, tome um café e estabeleça uma conversa de verdade. Certamente porque esse diálogo é difícil e dolorido e quem o fez e o faz não sai dele sem profundas marcas existenciais.

Há um outro dado científico que fala por si mesmo. Em 2015, segundo dados da prefeitura, eram 505 crianças e adolescentes nas ruas da capital paulista e, agora, são 664, ou seja, um aumento de 31%. Qual é o futuro que se pode imaginar para esses jovens? E essa indagação é concreta em termos de educação e saúde pública, deixando de lado qualquer ideologia política, social ou partidária.

A ausência do amanhã é o que mais incomoda. Não se trata de uma questão nova. Pelo contrário, é muito conhecida, mas isso não impede que cresça. Então tudo nos leva a perguntar, apesar da complexidade, por que não conseguimos solucionar essa equação. A arte, ao mostrar os sem-futuro, auxilia de alguma maneira, mas criar um amanhã para os sem-futuro é um desafio cada vez maior.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.