Exuberância vernacular

Por José Renato Nalini 23/03/2020 - 09:28 hs
Exuberância vernacular
José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Uninove e presidente da Academia de Letras


Avalia-se que 50% das mensagens em whatsApp contenham letras do alfabeto conjugadas com emojis. Este verbete deriva da junção em japonês de e e moji. São ideogramas, smileys que traduzem ideias sem a necessidade de se escrever, como ocorre convencionalmente.


Esse o mundo atual. Aquele em que escrever à mão tenderá a se converter numa arte praticada por poucos. Onde foi parar a caligrafia? E os cadernos utilizados para a métrica dimensional das minúsculas, em cotejo com as maiúsculas?



E pensar que o idioma português possui mais de 400 mil verbetes, uma riqueza cada vez menos explorada por quem se conforma com a onomatopeia, com o gestual, com expressões faciais que substituem a expressão verbal. Empobrecemo-nos? Tornamo-nos primitivos? Regredimos?

           

É um tema a suscitar reflexão.



A propósito, um cultor do vernáculo como foi Ruy Barbosa, deveria ser mais lembrado e mais lido por aqueles que padecem de indigência vocabular. Não conseguem sinônimos, exprimem-se numa sucessão medíocre de palavras nem sempre bem utilizadas. Não manejam o idioma com proficiência e, por isso, quase nunca são bem sucedidos em atividades que não prescindem de eficiente comunicação.



Há um texto emblemático de Ruy. Em 1899, enquanto sustentava habeas corpus impetrado junto ao Supremo Tribunal Federal, impressionou-se com a proximidade do mercado sexual, em promíscua vizinhança com a sede da Suprema Corte. Avizinhava-se o século XX e o Rio era a capital federal, no primeiro decênio após o golpe republicano.



Ele escreveu “Porneia” e, para referir-se às profissionais do sexo que faziam algazarra no mesmo passeio que servia ao Pretório Excelso, nenhuma vez sequer repetiu uma palavra para designar “as comparsas desse espetáculo fescenino”.


Utilizou-se de verbetes como zabaneiras, vênus vagas, afrodites mercenárias, rascoas, traviatas, michelas, marafonas, hetairas, madalenas, dalilas baratas, perdidas, barregãs, meretrizes, prostitutas, odaliscas, rameiras, messalinas, cortesãs, frineias de sarjeta. Ao comentar esse memorável artigo, Baptista Pereira completa o rol. Poderia ainda se servir de gansas, croias, biraias, trintasques, franjocas, chinas, fufias, ambulaias, ganirras, malungas, fregonas, comborças, calonas, lumias, patragonas, cambondas, pécoras, horizontais, bonejas, bagachas, farpellas, polhas, cantoneiras, tudo sem esgotar a exuberância vernacular do português.


A leitura do dicionário não deixa de ser um excelente exercício para quem não tem imaginação e, ao ser solicitado a escrever algo de original, fica a meditar, entre ansioso e aborrecido, por não lhe surgir nada na mente. É que o vazio não é terreno fértil para o germinar de boas ideias.

 

José Renato Nalini é REITOR DA UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS - 2019-2020.