Ou isto ou aquilo

Por Elizânia Azanha 27/03/2020 - 11:48 hs
Ou isto ou aquilo
Elizânia Azanha é professora de Redação

Estamos vivendo um momento particularmente difícil, nunca visto nas proporções atuais: quarentena, distanciamento social. Em especial os moradores do nosso estado estamos todos vivendo essa situação.


Evidentemente, esse cenário causa medo em todos: quem está em casa tem medo de sair, quem não pode ficar em casa tem medo por ter que sair, os profissionais da saúde têm medo de se contaminar, há pessoas com medo de perder os empregos, há outras com medo de não poder pagar os salários de seus empregados.


Estamos vendo as opiniões se dividirem, há aqueles que julgam indispensável o isolamento, há ainda os que acreditam que seja um exagero, que estejam fazendo tempestade em copo d’água. Quem está certo?


Cecília Meireles escreveu um lindo poema, cheio de dúvidas, um pedacinho dele diz:


Ou se tem chuva e não se tem som,

Ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!


Quando lemos seus versos, podemos fazer uma breve associação com o que vivemos hoje, mas com uma grande diferença: conseguimos responder, sabemos o que se ganha e o que se perde com cada escolha. Contudo o momento em que vivemos não nos permite essa certeza, sabemos que estamos perdendo, mas não sabemos o quê. Pior, gostaríamos de escolher não ficar no confinamento, mas também não sabemos o que ganharíamos ou perderíamos com isso.


Mesmo com tantas certezas implícitas, a própria poetiza termina seu poema afirmando “mas não consegui entender ainda / qual é melhor: se isto ou aquilo.”. Agora pensemos: se diante de escolhas tão simples, por vezes temos dificuldade em decidir, o que dizer de um momento tão delicado como o risco de uma contaminação?


Sim, há médicos concordando com as determinações governamentais, há outros que julgam exageradas as medidas, e nós, leigos em questões de saúde, o que pensamos, o que dizemos, o que fazemos?


Sou da opinião que ninguém quer acabar com o país ou com sua economia, estamos sim enfrentando um inimigo invisível e imprevisível, mas não sei dizer qual a real importância de se ficar em casa. Todavia, decidi fazer a minha parte, posso ficar em casa, ficarei em casa. Se não pudesse, pensaria diferente, claro, mas não sei dizer como.


Decidi também não fazer críticas infundadas, já que não sou especialista no assunto. Decidi acreditar que estar em casa é melhor para mim e para os outros. Sou saudável, talvez o vírus não fosse grave em mim, mas não sei, não sei também para aqueles que convivem comigo. Na dúvida, escolhi acatar as ordens.


Rezo todos os dias por todos, por quem está em casa, por quem está trabalhando, por quem vive no Brasil, por quem está em outra terra. Minha oração é um pedido de misericórdia por todos, para que essa praga seja combatida e que os sistemas de saúde sejam capazes de tratar aqueles que necessitem, que não falte cuidados a ninguém que deles precisem.


Ou isto ou aquilo vale quando temos as repostas, mas não num momento de tantas incertezas. Ou nossos representantes unam suas mãos em favor do bem comum, ou teremos mais discórdia, menos direitos garantidos, mais incertezas, mais medo.


          Mas não consegui entender ainda
          qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Elizania Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com