Ead: e agora?

Por Elizânia Azanha 06/04/2020 - 11:40 hs
Ead: e agora?
Elizânia Azanha é professora de Redação

Essa é a pergunta que estamos nos fazendo, em especial aqueles que têm filhos em idade escolar, já soube que essa será a forma de estudo nas próximas semanas e não compreende como será possível para seus filhos aprenderem sem a presença do professor, sem uma sala de aula, sem a escola presencial.


Há pelo menos duas décadas fala-se sobre EAD: Educação à Distância. No início do século 21, muitos eram os estudos que buscavam compreender essa nova modalidade de ensino que vinha buscando seu espaço no meio educacional. No ano 2000, participei do meu primeiro trabalho como cientista (sim, porque quando você faz um estudo, faz ciência, logo se é cientista), tratava-se de uma pesquisa de iniciação científica, composta por 4 alunos da graduação, sendo 3 das ciências da computação e eu da área pedagógica.


Muito aprendi com esse estudo e com os colegas de projeto, que me mostraram muito mais utilidade dos comutadores e redes do que eu poderia imaginar até aquele momento. Por exemplo, tínhamos uma rede social (sic!!!)! Imaginem isso, tínhamos uma rede interna, composta por nós quatro e nossos quatro orientadores, muito antes do Orkut.


Na época, EAD no Brasil era ainda muito rara, usamos a experiência da UnB como corpus de pesquisa, pois era a mais bem estruturada que havia no país àquele tempo. Estudamos também algumas plataformas dos EUA, onde a modalidade já havia ganhado mais corpo que aqui. Nossa bibliografia era extremamente restrita, pois muito poucos estudos havia sobre o assunto até aquele momento. Bem, tudo mudou.


Mas quero compartilhar aqui alguns dos meus conflitos dentro dessa pesquisa. Como estudante do curso de Letras, prestes a adentrar uma sala de aula e interagir com muitos alunos ao mesmo tempo presencialmente, foi muito difícil pra mim aceitar passivamente o fato de que a educação não precisaria mais da presença física do professor, tampouco da interação instantânea. Meus colegas de estudo, todas da tecnologia, lutaram muito para me mostrar que era possível, sim, haver aprendizado qualitativo sem a presença dessa figura, a mim, tão ilustre.


Bem, vamos atualizar os dados.


Os estudos nunca mais pararam e a EAD tornou-se uma verdade nacional com muitos ganhos, em especial para as populações mais distantes dos centros universitários e ainda as de renda mais baixa, uma vez que o custo de um curso à distância tende a ser muito menor que o presencial. Já realizei alguns cursos à distância e vi que, de fato, é possível aprender sem que haja um professor nos observando e interagindo a todo instante. Mas descobri, também, quanto é necessário se ter disciplina de estudo, foco no que se faz e, no meu caso, haver silêncio para me concentrar sozinha.


O que me preocupa neste momento é apenas o fato de estarmos usando EAD com crianças. Os professores não estão preparados! É o que tenho ouvido nas minhas redes, entretanto não concordo totalmente com isso. Não está preparado aquele professor que, como disse muito bem o educador português António Nóvoa (respeitada a escrita de Portugal), não têm 10 anos de experiência, mas sim 1 anos de experiência reproduzido em 10. Já aqueles que têm, de fato, 10 anos de experiência, ou mais, ou menos, já entenderam que a educação à distância é uma realidade e que é necessário estar preparado para esse desafio atual.


Não podemos ignorar, no entanto, que estamos vivendo um momento nunca vivido em toda a história da humanidade e, por isso, uma fase que ninguém se preparou para viver, até porque nunca imaginamos que aconteceria. Se a história é nova, novos também devem ser os modos como a escrevemos. Não adianta, agora, ficar procurando culpados, porque eles simplesmente não existem. Urge que escrevamos bem esse momento da nossa história atual, porque ela será contada no futuro como um marco: seja com um resultado positivo e exemplos a seguir, seja como uma tragédia a ser evitada. Prefiro acreditar que será a primeira alternativa.


O que fazer então? Viver um dia de cada vez fazendo o nosso melhor. Sei que parece clichê, mas é a mais pura verdade.


Pais não precisam se tornar professores, precisam fazer o que há pelo menos duas gerações fazem: ajudam seus filhos com a tarefa de casa. As dúvidas podem, e devem, ser enviadas aos professores, pois eles têm o papel de saná-las, e não tenho dúvidas de que o farão.


Os alunos mais velhos já são mais independentes em seus estudos, provavelmente nem quererão a ajuda dos pais. Às crianças cabe a nós pais oferecer o suporte necessário neste momento e a confiança de que eles necessitam para realizar novas tarefas sozinhos. Vamos ver esse momento como um aprendizado a todos, assim todos sairemos vitoriosos. Sem cobranças e sem culpas, cada um fazendo o seu melhor.


Se não for possível conectar seu computador na hora da aula, ninguém morrerá por isso, às vezes os alunos faltam à aula, depois é só se esforçar um pouco mais e recuperar o que se perdeu. Se não soubermos ajudar, peçamos ajuda, precisamos mesmo uns dos outros, ninguém sabe tudo, nem precisa saber. Se estiver muito difícil para a criança essa nova rotina, sirva um chá com bolachas, deixe-a respirar um pouco e recomeçar, eles são ótimos em aprender, afinal a vidinha deles acabou de começar, tudo é novidade.


Acredito, mesmo, que a nossa segurança é o mais importante para nossos filhos neste momento. Eles se espelham em nós. Se dizemos: você consegue, vai lá, força aí; é isso que eles dirão a si mesmos a aos outros. Mas o contrário também é verdade.


Eu nunca tive um par de patins, razão pela qual nunca aprendi a andar com um (além, é claro, do medo que sinto), mas quando minha filha de 10 anos comprou um par com toda a economia que ela mesma fez durante um ano, pôs nos pés e disse: é difícil. Eu respondi imediatamente: você consegue, acredite em você. E alguns dias depois ela já andava lindamente, segura de si.


Pais, acreditem em vocês!

Elizania Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com