A culpa não é minha

Por Elizânia Azanha 17/04/2020 - 11:43 hs
A culpa não é minha
Elizânia Azanha é professora de Redação

 

Ouvi de alguém, certa vez, que às vezes precisamos culpar alguém para diminuir nossa dor. Creio que estamos vivendo esse fenômeno recentemente. As redes sociais parecem ter se tornado um palco de acusações, todos tentando apontar um culpado para esse momento único na educação brasileira e mundial.


Mas a verdade, a meu ver, é que não há culpados. Todos estamos no mesmo barco. Há falhas, sim, muitas, mas nenhum culpado. Então o que fazer? Procurarmos todos remar na mesma direção na esperança de encontrarmos um porto que nos abrigue e proteja.


É inegável que, apesar de tantas mudanças tecnológicas ocorridas nas últimas décadas, ninguém se preparou para a educação à distância. Mais uma vez, estamos engolindo uma mudança na educação, desta vez provocada por uma pandemia, não por PCNs ou BNCC ou qualquer outro nome que um plano nacional de educação tenha recebido.


As escolas não estavam preparadas, os professores não estavam preparados, contudo estou vendo o esforço de escolas e educadores para manter alguma qualidade na educação que oferecem. Além disso, a disponibilidade dos professores para ajudar merece ser elogiada, porque, se há falhas do lado técnico, o humano, ao contrário, supera qualquer expectativa.


Como mãe, também não estava preparada, não estávamos. Sou presente e sempre ajudo nas tarefas de casa, mas o que está havendo agora vai muito além disso. Parei meus projetos para atender exclusivamente às necessidades dos meus filhos, com 4 e 10 anos, e sei que esta é a realidade de grande parte dos pais. Tomei essa decisão porque posso, neste momento, dedicar-me unicamente a eles, mas me compadeço por todos os pais que não podem, e sofrem ainda mais com a situação atual.


Todavia, o que mais me entristece é ver pessoas procurando culpados. A culpa não é de ninguém, embora todos estejamos pagando o preço. É hora de cada um fazer o seu melhor, sem cobrar nem se cobrar. Não vale à pena acursarmos os professores pelas aulas que podem oferecer, melhor seria agradecer pelo que podem oferecer.


Ao menos na educação, creio que o aprendizado se dará de qualquer maneira. Mais rápido para alguns, mais lentamente para outros, mas no fim do processo ninguém aprende igual mesmo. Pense numa sala de aula regular e presencial com 40 alunos, não se pode garantir que todos aprendam da mesma forma nem no mesmo ritmo, pois estamos falando de pessoas, de indivíduos, e não de programas de computador ou máquinas.


Falo com conhecimento de causa. Há 16 anos ensinando adolescente no Ensino Médio, em cada turma encontrei um novo desafio, em cada aluno encontrei um novo ser com inteligências e necessidades únicas. Sempre foi e sempre será, para os professores, um desafio ensinar a todos o mesmo conteúdo, porque, no fim, cada um aprende de um modo e está tudo bem.


Tive nessa jornada muitos alunos que foram fazer intercâmbio em outros países, a maioria para os EUA, e todos voltaram dessa experiência com o mesmo relato: os conteúdos no Brasil são muito mais difíceis que lá. Talvez, então, seja o momento de revermos esse conteúdo e ensinarmos o que de fato é importante. O restante, deixa para 2021, ou para a universidade, não sei, mas vamos nos adequar, e as crianças vão aprender.


Estou vendo minha garotinha de 10 anos crescer, sendo capaz de ler os textos sugeridos e fazer interpretações e análises sozinha, sem minha ajuda. Se isso não é aprendizado, o que é então?


Está, sim, muito difícil para os pais, não só pelo conteúdo que muitas vezes não dominam (porque não precisam mesmo) para ajudar os filhos, mas também pela (des)ordem de nossas vidas com todo mundo trabalhando/estudando no mesmo espaço: nosso lar. Mas isso não significa que não possamos fazer o nosso melhor e acreditar que os professores também estejam fazendo o seu melhor.


Tristeza mesmo é imaginar como deve estar sendo para aqueles que estão em situação de vulnerabilidade, sem os recursos técnicos e humanos de que dispomos. Que moram em espaços que pouco são adequados para a moradia, menos ainda para um processo “escolar”. Pais que não aprenderam a ler, e precisam auxiliar seus filhos no processo de alfabetização. Mas, de uma coisa estou certa, estão também fazendo seu melhor.


A culpa não é minha, não é sua, não é dos professores, e tentar encontrar um culpado agora só nos causará mais frustração. Vamos fazer o nosso melhor, sem cobrar dos outros nem de nós mesmos. Nossas crianças aprenderão tudo o que for necessário, neste ano ou no próximo, mas certamente se lembrarão no futuro dos nossos esforços para tornar os seus dias de “quarentena” menos dolorosos.


Que isso tudo passe logo e que possamos continuar olhando pela educação, com carinho, com a importância que ela merece, com o valor que ela tem.


Elizania Azanha é professora de redação

elizania.azanha@gmail.com