Vamos fazer dar certo

Por Elizânia Azanha 27/04/2020 - 17:36 hs
Vamos fazer dar certo
Elizânia Azanha é professora de Redação


A educação institucionalizada faz parte da nossa realidade desde sempre. Nunca tivemos outro modelo de educação, nosso avós (aqueles que tiveram condições) já frequentaram um banco escolar. Aprender para nossa geração e várias antes de nós é sinônimo de escola, “vai pra escola menino pra aprender”, “só a escola sabe ensinar”, “quem não vai pra escola não aprende”... Essas e outras frases envolvendo o verbete escola fazem parte de nossas memórias. Mas o que é escola?


Crescemos com o entendimento de que essa escola que ensina é uma construção, um prédio, um lugar, primeiro significado no dicionário Houaiss, um dos mais completos atualmente na língua portuguesa. Mas está na hora de rompermos essa barreira e compreendermos o que realmente quer dizer “Escola”, aquela que no mesmo dicionário aparece na referência 2 como “conjunto de professores, alunos e funcionário de uma escola” e ainda na 7 como “conjunto de conhecimentos; saber”. Pronto, a escola não é só o prédio, aliás, o prédio se chama escola porque há nele professores e alunos. Sendo assim, de fato não precisamos das paredes do edifício escolar para aprender.


Vamos além, escola vem do latim Scholae, e sabemos bem que 2000 anos atrás não havia prédios escolares, a educação era feita em diferentes ambientes, na sua maioria da na casa do mestre. Não quero estabelecer uma comparação com o modelo de educação que estamos vivendo hoje, quero apenas mostrar que escola nasce com um professor e, assim, acreditar que o aprendizado acontecerá, mesmo que esse mestre não esteja fisicamente em nossos lares.


Hoje começam as aulas à distância na rede pública de ensino do Estado de São Paulo, nas próximas semanas serão retomadas também na rede privada. É hora de deixar esses profissionais entrarem em nossas casas, virtualmente, sim, mas com seu conhecimento, com sua dedicação, com sua esperança.


Acostumamo-nos a deixar nossos filhos no portão da escola e confiar nela. Confiamos nosso maior tesouro a um prédio? Na verdade, não. Sempre confiamos nas pessoas que estavam dentre desses prédios, acreditamos que elas ensinariam e cuidariam dos nossos bens mais preciosos. E elas continuam cuidando. Mas agora de dentro de suas casas para dentro das nossas.


O grande educador Paulo Freire defendia que “educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”, e é isso que os professores estão buscando durante esta pandemia, um meio de fazer sentido para os estudantes tudo o que precisam ensinar.


Não sou favorável ao homeschooling, vejo vários pontos negativos nesse modelo, e continuo crendo que não sou a pessoa mais indicada para ensinar meus filhos, apesar de ser professora. Ensinaria muito bem as regras da língua portuguesa a eles, mas será que com o mesmo cuidado dos professores que se dedicam ao ensino nas primeiras séries escolares? Provavelmente não, meu público sempre foram os jovens, nunca as crianças, não quero, pois, essa tarefa para mim. E nenhum de nós, pais e mães, deve assumi-la.


Devemos, sim, deixar que os professores ensinem nossos filhos. Não se trata de homeschooling, mas de Educação à distância, duas modalidades muito diferentes. Se confiávamos nos professores quando nossos filhos estavam longe de nós, confiemos agora também. Mudou o ambiente escolar, não o professor, nem o processo de aprendizagem.


Trata-se de um momento inédito na vida de todos nós. Estamos todos nos reinventando para enfrentar essa crise, não é diferente com a educação. Tenho ouvido professores relatando suas dificuldades, pois anseiam por um ensino de qualidade, sabem que pode haver perdas com a separação espacial de si e seus alunos, contudo estão buscando todas as ferramentas necessárias para garantir o máximo de qualidade às aulas virtuais.


Enquanto nossos filhos estão de férias, os professores estão preparando aulas, fazendo cursos on-line para aprenderem a ensinar à distância, eles não tiveram férias. Vamos valorizar essa dedicação, porque não se trata de mera conservação de seu salário, significa garantir que seus alunos, razão do seu trabalho, aprendam com o menor sofrimento possível.


Definitivamente, nós, pais e mães, não precisamos ensinar nossos filhos os conteúdos escolares, precisamos apenas auxiliá-los no processo. Vamos ajudá-los a organizar seu espaço de estudo, a organizar seu tempo e ampará-los quando nos pedirem apoio, como sempre fizemos. A tarefa de ensinar, deixemo-la àqueles que passam grande parte de suas vidas aprendendo a fazer e buscando meios de melhorar seu ofício.


Sem trocas de ofensas, mas cheios de vontade de fazer o melhor a cada dia, juntos venceremos essa etapa mais que difícil pela qual todos nós estamos passando.


Elizania Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com