De cabeça para baixo

Por Elizânia Azanha 14/05/2020 - 21:07 hs
De cabeça para baixo
Elizania Azanha é professora de Redação

Acordar cedo, tomar café da manhã correndo para não se atrasar para a escola, trabalhar 8 ou 9 horas sem muito tempo para pensar nos filhos que deixara na escola, mas sem jamais esquecer-se deles ou das suas necessidades. Retornar para casa já com o cardápio da janta na cabeça, e o do almoço do dia seguinte também. Preparar o jantar, servi-lo para a família, checar as agendas das crianças, ajudar na tarefa de casa, deixar a cozinha pronta para o café da manhã seguinte, organizar a casa, tomar um banho relaxante e, finalmente, deixar o corpo descansar na melhor cama do mundo, a fim de recarregar as baterias para o dia seguinte.


Essa tem sido a vida de grande parte das mães e pais, uma rotina exaustiva, que leva qualquer um a desejar férias mais longas ou, quem sabe, um ano sabático? Imaginem só?! Um ano sem a correria de todos os dias, sem hora pra nada, sem perder hora nunca.


O sentimento de cansaço era tão grande que não julgo errado alguém ter tido esse desejo. Oras, como seria incrível poder acordar quando o sono acaba, sem um alarme nos tirando da melhor parte de um sonho lindo. Como seria bom poder assistir a tudo que se deseja na TV sem hora de dormir, porque não se tem compromisso na manhã seguinte bem cedo. Como seria bom poder passar o dia em casa, sem relatórios para entregar, sem metas para cumprir, sem chefes cobrando mais e mais resultados...


Cheguei mesmo a desejar tudo isso. Você não? Mas, de repente, uma certa pandemia coloca tudo isso de cabeça para baixo... Não vamos sair de casa o dia todo, ninguém cobrando resultados de nós, nenhum horário a cumprir. Poderia ser bom, contudo descobrimos que não queríamos de verdade essa rotina, ou melhor, não queríamos a falta dela.


Rotina nada mais é que a possibilidade de controlar o que nos acontece, de ter um norte para nossos dias, de saber como será nossa jornada durante 24 horas.


Conheço muitas pessoas que associam a palavra rotina com a palavra monotonia, e esta última sendo lida como sinônimo de chatice, de falta de criatividade, de ausência de prazer. Todavia, quero compartilhar a minha visão de rotina, e ela se opõe totalmente a isso.


Para mim, rotina é apenas a certeza de que nada de ruim aconteceu naquele dia. É a garantia de que as pessoas que amo estarão bem. É a segurança de que farei bem o meu trabalho. É o conforto de ir e vir sem percalços no caminho. É a beleza de reconhecer cada dia como único, apesar de nada novo. É poder planejar o novo e se alegrar com as surpresas que a vida nos prepara. Rotina é poder dizer para os meus filhos “tenham uma ótima aula” ao deixá-los na porta da escola que eles tanto amam, e poder perguntar “como foi seu dia” certa de que as respostas serão boas, porque a rotina não fora quebrada, afinal ninguém me ligou da escola.


Agora, o que estamos vivenciando nesses já dois meses não é o que eu gosto de chamar de rotina. Porque preciso me reinventar todos dias para conseguir manter casa, filhos e trabalho funcionando, já que está tudo no mesmo lugar e no mesmo espaço. A física vem nos dizer que isso é impossível, mas essa é a real sensação que tenho neste momento. Como preparar uma aula enquanto os filhos estão correndo pela casa, derrubando coisas, brigando (porque irmãos brigam o tempo todo, e acho que é isso que fortalece nossos laços). Nos horários de suas aulas online precisam de nosso apoio, na escola se viravam sozinhos, mas o que fazer? Se está difícil para um adulto, o que dizer de uma criança?


Nossa rotina ficou mesmo de ponta cabeça, e o que mais desejamos neste momento é que ela se reestabeleça. Queremos voltar a ter horários a cumpri fora de casa. Queremos o corre-corre de cada dia para fazer todos os compromissos de cada membro da família caber em nossas 24 horas. Queremos ir dormir com a certeza de que no dia seguinte seremos acordados por um alarme nos dizendo que a vida voltou ao normal.


Mas, acima de tudo, queremos a certeza de que estamos saudáveis e seguros para caminhar pelas ruas de sempre. Queremos não temer dizer bom dia às pessoas que encontramos na rua. Queremos não precisar carregar álcool gel nas bolsas e ressecar nossas mãos cada vez que tocamos em um objeto que não é nosso. Queremos que nossos sorrisos sejam expostos e não escondidos em máscaras. Queremos correr com as crianças pelos parques livremente, certos de estarmos respirando ar puro. Queremos não temer entrar em elevadores com outras pessoas. Queremos passar horas nos supermercados escolhendo nossos produtos. Queremos aquela rotina de antes.


Isto não se trata de um manifesto pelo fim do isolamento social, mas sim de uma corrente positiva pelo fim da pandemia. Não é o isolamento que está tumultuando nossas vidas, é um vírus. É contra ele que devemos lutar, não uns contra os outros. Cada um sabe onde aperta o sapato. Acho que é isso. Sem julgamentos, sem ofensas, sem ódios. Todos num único pensamento: vencer o vírus! Amém.


Elizânia Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com