É hora de mudar

Por Elizânia Azanha 20/05/2020 - 17:19 hs
É hora de mudar
Elizânia Azanha é professora de Redação

Temos ouvido muitas pessoas, artistas principalmente, defendo que é hora de aproveitarmos para fazer mudanças, aprender coisas novas, arriscar com coisas diferentes das que estávamos acostumados a fazer. Confesso que acho essas propostas muito boas, nem sempre praticáveis, mas por que não tentar?


Ocorre que essas mudanças não devem ficar restritas à vida particular, faz-se necessário que pensemos em mudanças num âmbito mais extenso, vista a dificuldade que estamos enfrentando para manter nossas rotinas nesse momento de isolamento social. E a educação é, a meu ver, a melhor área para começarmos a mudar.


Há algumas semanas temos visto nas redes sociais manifestações contrárias à aplicação do Enem em 2020. Comecei então a refletir sobre o assunto. Cancelar parecia bom, mas, nesse caso, os alunos concluintes do ensino médio de 2020 teriam de esperar até 2021 para tentarem uma vaga nas universidades públicas. Manter na data prevista, sem dúvida, prejudicaria uma grande quantidade de alunos concluintes que, sem acesso à internet, não terão aulas enquanto elas se mantiverem à distância.


Ontem, ouvindo um bate papo em uma emissora televisiva de jornalismo, ouvi uma deputada defendendo o adiamento. Eureka! Por que não? Adia-se o exame até que se tenha certeza de que todo o conteúdo de ensino médio tenha sido oferecido a todos os alunos do 3º ano do EM. Hoje a boa notícia: senado aprovou o adiamento ainda sem data definida.


Creio mesmo que essa seja a decisão mais sensata neste momento. Mas como ficam os calendários das universidades?


Vamos lá. É tempo de mudança, vamos mudar. Por alguma razão, no nosso país, o ano escolar coincide com o ano calendário. Mas será mesmo que precisa ser assim? Talvez seja mais fácil gerir desta forma, mas não significa que não se possa fazer de outra maneira.


Quando ocorrem greves nas universidades públicas, ajustam-se os calendários ignorando-se férias ou comemorações como Natal para marcar início e fim de semestre. Estabelecem-se outras regras, de modo que os alunos tenham acesso às aulas e aos conteúdos necessários antes de concluírem seus cursos. Alguns meses a mais na escola, mas ok. Cursos concluídos e alunos com competência para ingressarem em suas profissões com os conhecimentos necessários.


Também não podemos ignorar que nos institutos federais as aulas estão paralisadas, justamente para não prejudicar os alunos que têm grande dificuldade em acompanhar as aulas por meio da internet (devo confessar que achei louvável essa preocupação), o que significa que o calendário deles também precisará ser atualizado.


Resumindo: adiar uma prova de ingresso para a universidade não é o fim dos tempos, é, na verdade, o início de novos tempos, em que estamos mais preocupados em oferecer direitos (quase) iguais aos alunos concluintes, do que em cumprir datas previamente estabelecidas.


O senhor Ministro da Educação que me desculpe, mas o Enem serve sim para tentar diminuir as desigualdades educacionais deste país, embora eu deseje que fosse diferente. A propósito, por que não iniciar essa mudança também? Por que não olhar a vida escolar dos candidatos e não apenas o que são capazes de responder em dois dias, numa prova exaustiva? Por que não considerar, de fato, as habilidades dos alunos, uma vez que irão para carreiras distintas, e nem todas necessitam de tantos conhecimentos acumulados de física ou biologia, por exemplo?


Concordo com a deputada Tábata Amaral (e isto não é uma propagando política, mas tive a oportunidade de ouvi-la, então fica aqui meu apoio à ideia), esperamos o dia em que o ingresso para as faculdades, todas, não apenas as federais, levem mais em conta as habilidades necessárias para a carreira escolhida do que um conjunto de saberes adquiridos ao longo do processo educativo, mas não essenciais para essa carreira.


Lembro-me de uma ex-aluna, candidata a uma vaga do curso de Letras, brilhante com as palavras!!! Escrevia muito bem, textos esplêndidos! Uma capacidade fabulosa para o debate, ótima argumentação, habilidade admirável com as disciplinas da área de humanas, preocupada com as provas de física e química do Enem. Ela não conseguiu uma vaga através desse modelo de Enem, mas ingressou em uma universidade estadual que já iniciou essa mudança, onde os candidatos devem demonstrar maior competência nas áreas afins da carreira escolhida na prova do vestibular. Modelo a ser seguido e melhorado.


Bem, os sonhos são muitos, mas sabemos que há muito trabalho para que sejam realizados. Por hora, o Enem adiado é o que temos, e vamos aproveitar. Quem sabe não seja a porta que faltava para se pensar em outras mudanças.


Elizânia Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com