Eu tenho um sonho

Por Elizânia Azanha 30/06/2020 - 10:27 hs
Eu tenho um sonho
Elizania Azanha é professora de Redação


Quem é que não tem um sonho? Todos os temos, pequenos ou grandes, realizáveis ou utópicos, não importa, são os sonhos que movem a humanidade. Não fosse assim, ainda viveríamos em cavernas, comeríamos apenas carnes e raízes, não teríamos carros motorizados, pontes ou remédios contra o câncer; sequer saberíamos o que é câncer.


Definitivamente, os sonhos nos tornam quem somos. Sejam os nossos: indispensáveis para que nossa caminhada tenha sentido; sejam os de outros homens que, com seus sonhos, nos permitiram todos as vantagens modernas, desde nossas roupas quentinhas para os dias de frio, até vacinas contra novas doenças.


Demorei muito para entender quanto as aulas de história são importantes, na verdade, acho que ensinamos história na hora errada: quantas são as crianças que querem saber do passado? E do jeito errado: deveríamos instigar os pequenos a partir de suas próprias curiosidades, explicar aquilo que fizesse sentido aos seus reais interesses, e ir aos poucos mostrando a importância da história, sem exigir-lhes datas ou nomes, mas apenas auxiliando-os a interpretar o mundo de hoje, com base naquilo que ele já fora, revelando sonhos que foram realizados ou não.


Meu sonho é mudar nossa história. Vivemos em um país onde a mentira sempre esteve presente. Toda nossa história mostra mentiras contadas e vividas aqui. Isso me entristece muito, e mais ainda, porque parece que vivemos um ciclo vicioso: falamos das mentiras passadas, mas nos calamos com as mentiras presentes; entra governo, sai governo, e as mentiras continuam; apontamos os dedos para as mentiras de nossos representantes, mas não nos incomodamos em tirar vantagens de cada situação, ainda que haja mentiras nelas.


O que precisamos fazer para encerrar esse círculo e iniciar um novo? Não posso dizer que tenha a resposta, mas sem dúvida, começar a exigir a verdade é nosso dever. Elegemos nossos representantes, então é nosso direito exigir que sejam honestos conosco, com o nosso dinheiro, com os nossos direitos. Contudo, ainda acho que devemos ser os primeiros a agir com honestidade, porque só pode atirar a primeira pedra aquele que não mentiu.


Não se trata de uma lição a ser ensina na escola, mas, sim, em casa, com a família. Honestidade é questão de princípios, deve estar na formação do nosso caráter, deve ser aprendida desde muito cedo. Criança mente para tentar não ter castigo, para não desagradar aos pais, ou sabe-se lá o porquê (a psicologia pode nos auxiliar aqui), entretanto é dever dos pais, desde a primeira mentira, mostrar o quão errado é isso, mostrar que o certo a se fazer é dizer a verdade, para que as pessoas possam confiar em você, para que você se sinta em paz e não com um nó na garganta.


Acontece que a educação começa em casa e continua em todos os demais ambientes a que uma criança tenha acesso e, claro, a escola está nesse conjunto, e cabe à essa instituição colaborar para o reforço da importância de se dizer a verdade sempre. Não à toa, todos os envolvidos nesse processo devem, igualmente, agir de acordo com a verdade. Dizer a verdade, mostrar a verdade, valorizar a verdade.


O ano era 2009, primeira semana de aula em um colégio novo, muito bem conceituado na cidade, eu era a nova professora de português de algumas turmas, dentre elas uma turminha de 8º ano, adolescentes de 12 e 13 anos. Na primeira aula me apresentei, falei pouco de mim mesma, porque queria ouvir sobre os alunos, saber de suas histórias e de seus sonhos para aquele ano. Segundo dia de aula naquela mesma turma, um garotinho que se sentava ao fundo da sala, levantou-se, dirigiu-se a mim e disse que havia “me procurado” no Google. Estava surpreso porque havia duas páginas sobre minhas produções e estudos. Não precisei apresentar meu currículo pra ele, ele já tinha todas as informações, sabia onde me formara, os congressos de que eu participara, sabia até o tema da minha dissertação de mestrado. Naquele momento, aprendi uma lição muito importante com aquele menino de 12 anos:


Vivemos na era da informação, não podemos mais esconder o que fizemos ou deixamos de fazer, em especial sobre nossa formação escolar, os trabalhos que desenvolvemos, ou tudo aquilo que colocamos nas nossas redes sociais. Talvez essa ampla rede de informações nos ajude a mudar nossa história e deixarmos as mentiras para trás.


Eu ainda tenho um sonho: que a educação brasileira nos ajude a diminuir as desigualdades, a valorizar as diferenças e, principalmente, a entendermos que a mentira é um ato que não compensa.


 Elizania Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com