Meus tesouros são minha responsabilidade

Por Elizânia Azanha 30/07/2020 - 11:43 hs
Meus tesouros são minha responsabilidade
Elizânia Azanha é professora de Redação


Atire a primeira pedra quem ainda não se questionou sobre a real necessidade de tantas regras durante essa pandemia. Não mandar as crianças para a escola, não ir a parques, não visitar os pais e avós com mais de 60 anos, não isto, não aquilo. Usar máscaras, ficar em casa. Nada disso fazia parte de nosso holl de informações. Nenhum de nós nasceu nesse mundo que vivemos. Nascemos em outro, onde podíamos ir e vir sem medo de um vírus que mata. Mas agora ele habita entre nós, ainda que muitos insistam em negar seu poder.


Li pela manhã uma reportagem em que o filósofo e professor Roberto Romano, brilhantemente, expôs a dificuldade que nós, humanos que somos, temos de entender a dor quando ela não nos é próxima. Tenho um pai maravilhoso, uma pessoa iluminada que abre mão de todas as suas necessidades em prol de outrem, mas esse mesmo ser magnânimo só acreditou nos reais perigos da Covid-19 quando viu um colega de trabalho sofrer até a morte. Triste, mas real. Creio que esse homem salvou meu pai.


De fato, muitos de nós não consegue acreditar nos perigos até eles se exporem a nós, mas o que fazer quando quem se exporá a esses perigos são nossos bens mais preciosos? Corremos o risco ou nos precavemos?


Decidimos nos precaver.


Há 11 anos, meu esposo e eu decidimos ser pais. Temos hoje dois tesouros preciosos. Duas pessoas que trouxemos a este mundo e decidimos cuidar mais que nossas próprias vidas. Por eles, abrimos mão de qualquer desejo ou necessidade, em nome das deles. Agora entendo meu pai. Agora compreendo o significado da palavra altruísmo.


Este ano estamos enfrentando o maior desafio de nossas vidas, decidir o que fazer estando dentro de uma pandemia que mata milhares de brasileiros todos os dias. Estamos desde março presos em nossas casas. Descobrimos que é possível trabalhar e estudar de dentro de nossas casas (não que seja o melhor, mas é possível). Contudo passar por tanto isolamento não é tão fácil, em especial para a parcela da população que ganha o seu pão de cada dia a cada dia.


Vimos de tudo: quem defende ficar em casa, e quem defende ir trabalhar. Quem acha um absurdo fechar o comércio, e quem teme entrar num supermercado. A questão é que todos estão certos. A economia não pode parar, ou muito mais gente morrerá de fome. E o perigo é real também, soubemos de pessoas saudáveis que, após a contaminação, passaram dias na UTI, algumas não voltaram para casa.


A discussão do momento é o retorno às aulas. Voltar ou não voltar, mandar ou não mandar os filhos para a escola? Os alunos da rede pública têm enfrentado dificuldades para terem aulas remotas. As escolas particulares estão perdendo alunos. E o que fazer? Dar o ano por encerrado? Manter as aulas como estão? Haveria outra opção?


São muitos os casos, e num país tão superlativo como o nosso, as diferenças de realidade são incomparáveis à maioria dos países. Penso que é preciso cautela, e zelo pela vida. Crianças aprendem muito rápido, ofereça recursos a elas que elas aproveitarão. Há mais de uma década estudos mostram que a adolescência tem se estendido até mais de 20 anos, mas insistimos em mandar nossos alunos para as universidades antes mesmo dos 18. É hora de escolhermos a vida. Um ano a mais na escola pode pesar no bolso dos pais, mas não na vida dos alunos. Ademais, com currículos mais enxutos, ninguém perde nada.


Ajustam-se os calendários, prioriza-se o necessário e não precisamos perder o ano escolar. Qual o problema do ano letivo terminar em janeiro, fevereiro ou março? Resiliência é a palavra da vez. Podemos nos adaptar e ninguém perder nada, nem os pais, nem as escolas, nem muito menos os estudantes.


Que precisa voltar em algum momento isso é certo, mas quem poderia dizer que momento é esse? Paremos de culpar o governo por tudo, ele não trouxe a pandemia, ela chegou sem ser convidada. Decisões devem ser tomadas todos os dias, eu não queria ter essa bomba nas minhas mãos, porque certamente nenhuma decisão será ideal para todos, nunca.


Se os responsáveis pela saúde entendem que já se poderá voltar às aulas com segurança, talvez seja a opção para algumas famílias, em especial aquelas que mais dificuldade têm enfrentado para manter as crianças e adolescentes em casa. Não nos cabe fazer julgamentos, cada um sabe de suas reais e mais importantes necessidades. Mas se você, como eu, pode escolher cuidar do seu tesouro precioso em casa, até que se sinta mesmo seguro para mandá-lo à escola, por que não?


A responsabilidade é minha sim, sou a mãe deles, cabe a mim decidir o que é melhor para eles até que sejam adultos para isso. E se o governo vai me dar essa possibilidade ou não, não me importa: meus filhos não voltarão para a escola em setembro e ninguém me obrigará a isso. Se haverá revezamento, que ele fique disponível para quem precisa mandar as crianças para a escola, acho que assim também contribuo em diminuir o contato entre as crianças, até que ele seja seguro.


Porque um dia ele será, e quando for, poderemos retornar nossas rotinas sem medo. Até lá, vamos cada um olhar para suas prioridades sem julgar as dos outros. Vamos cada um assumir suas responsabilidades, sem culpar ninguém, nem a si mesmo.


Elizânia Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com