Sou professora, com orgulho!

Por Elizânia Azanha 06/10/2020 - 22:23 hs
Sou professora, com orgulho!
Elizânia Azanha é professora de Redação

Tive a felicidade de ser criada em uma família que vê homens e mulheres com os mesmos valores. Cresci ouvindo que a educação era a forma mais honesta e digna de se obter sucesso na vida. Filha de pais operários, com pouca instrução institucionalizada, aprendi a valorizar o professore tal qual a educação, afinal são os formadores de todas as outras profissões. Ouvia, em casa, que eu devia a meus professores o mesmo respeito que a meus pais. Eu e minhas três irmãs (somos apenas mulheres na vida de meu pai) fomos educadas para sermos independentes, para termos uma profissão e podermos viver dela.


Há 21 anos, quando decidi que estudaria Letras, não recebi muito apoio de meu pai. Sua leitura sobre a profissão que ele sempre nos ensinara a valorizar era de que professores são mal remunerados e pouco reconhecidos, obrigados a trabalhar muito por muito pouco e ainda tendo de enfrentar desrespeito de alunos e pais. Mas eu estava decidida e, pela primeira vez em minha vida, não ouvi os conselhos de meu pai. Formei-me professora de português, com orgulho e louvor.


Ao final da cerimônia de colação grau, ouvi meu pai dizer que estava errado. Que naquele momento entendera a minha escolha: “ser professor é muito mais que ter uma profissão, é cumprir uma missão”. Essa fora sua conclusão com base em todas as pessoas e palavras que ouvira durante minha formatura. Naquele momento, meu pai compreendeu que eu seria uma profissional de sucesso.


No ano seguinte eu já estava iniciando os estudos para um mestrado em linguística; também prestei concurso público na rede estadual de educação do estado de São Paulo e fui muito bem aprovada. Iniciei minha carreira no magistério em escolas pública e privada. Nunca mais parei.


A cada aula eu queria saber mais para ensinar mais. Ser melhor que ontem é meu lema de vida. Ajudar meus alunos a serem melhor é minha missão. Sou professora, com orgulho. Ganho menos do que sei que mereço, como a maioria dos professores deste país; mas, muito mais do que a maioria dos brasileiros, meus compatriotas, inclusive muitos com diploma de ensino superior.


O salário é, sem dúvida, importante, mas a dignidade é indispensável.


Muito me espanta que um doutor em educação, diplomado por uma das instituições de ensino superior mais respeitadas deste país, tenha a ousadia de dizer que ser professor hoje é resultado da falta de opção, ou, pior, por incompetência. Quando esse doutor é Ministro da Educação, o espanto se transforma em indignação. Anseio pelo dia em que um Ministro da Educação deste país aja em favor da educação, valorize a educação e o educador e acabe com esse estigma de que ser professor não é bom.


Se vivemos em uma sociedade que não valoriza a classe do professorado, a culpa é de políticas públicas que não foram capazes de atribuir a esse profissional o seu devido valor. Houvera um tempo em que ser professor era sinônimo de admiração e respeito. O que aconteceu que isso acabou? Por que aquele que era tido na mais alta reverência passou a ser considerado menos importante que todos os outros profissionais?


Desafio, aqui, um médio, engenheiro, advogado ou qualquer outro profissional talentoso e bem remunerado, a dizer que nunca precisou de um professor. Mais, a declarar que seus professores (ainda que não todos) não contribuíram para a sua formação, não contribuíram para ser o bom profissional que é hoje. Caí no senso comum. Triste, mas verdadeiro. Por que a classe dos licenciados é tão menosprezada nesta sociedade?


De fato, há pelo menos duas décadas, o número de jovens que se interessam por um curso superior de licenciatura caiu consideravelmente. A ponto de muitas instituições retirarem alguns desses cursos de seus currículos. Mas isso não se deve, justamente, a esse contexto terrível em que os professores têm vivido?


Lembro-me de uma professora, há pouco mais de uma década, que teve os 4 pneus do carro furados porque o aluno teve uma nota menor do que ele queria. Estamos falando de uma nota quando o que faltou foi educação. Apesar das testemunhas, os pais negaram que tivesse sido seu filho. E a professora ficou com o prejuízo e a vergonha, como se ela fosse a culpada. Mudou de cidade e de profissão. Triste.


Exemplos não faltam de situações em que professores são colocados como menos importantes diante de ações de alunos e pais. O princípio da justiça é que todos recebam o mesmo tratamento; que todos tenham os mesmos direitos; que todos sejam inocentes até que se prove o contrário. Professores têm sido sempre os culpados.


Como mudar isso? Eu começaria devolvendo à educação a importância que ela tem. Valorizaria mais os professores e, assim, poderia exigir mais deles. Mais formação, mais renovação, mais conhecimento. Porque com melhores salários os professores não precisariam trabalhar em duas ou três escolas, nem ministrar 50 aulas por semana. Eles teriam muito mais tempo para se dedicar ao saber.


Criaria estratégias para que em todas as escolas o saber fosse mais importante do que passar de ano. Quem aprende, guarda para a vida. Criaria campanhas de valorização da educação, de forma a mostrar para a sociedade quanto nossas escolas e professores são fundamentais para um Brasil melhor e mais justo.


Com maior dignidade de tratamento, mais jovens escolheriam ser professores, para, além de ensinarem um conteúdo, formar pessoas melhores, porque é isso fazemos todos os dias. Cada vez que entramos em uma sala de aula (presencial ou virtual) vemos pessoas em formação e encaramos o maior desafio que um profissional pode ter: aprender com as diferenças e ensinar para a igualdade.


 Elizânia Azanha é professora de Redação
elizania.azanha@gmail,com