Era uma vez

Por Elizânia Azanha 16/10/2020 - 11:50 hs
Era uma vez
Elizânia Azanha é professora de Redação

 

Como muitos da minha geração e das anteriores, cresci ouvindo histórias que começavam com “era uma vez”. Essas eram as mais lindas, apaixonantes. Eram aquelas que aos poucos fui sabendo contar, sabia quem eram as personagens, sabia onde a história se passava, e já nas primeiras linhas reconhecia o final, mas ficava atenta à história toda. Saber o que aconteceria no fim nunca diminuiu o meu interesse pela história toda.


Na maioria dessas histórias, havia uma tragédia, algo muito ruim acontecia, mas no final tudo era sempre resolvido, muitas vezes, por um herói, que aparecia de repente e conseguia derrotar o vilão. E assim fui aprendendo que as pessoas poderiam ser boas ou más, e que eu deveria sempre escolher ser o herói.


Alguns anos se passaram e em meus estudos de mestrado conheci uma pesquisadora que investigava (no meu entendimento) tudo que havia de ruim naqueles clássicos que eu crescera lendo. Foi um choque. Por que as pessoas precisam tentar encontrar problemas em tudo? Foi o meu questionamento naquela época. Juro que tentei entender as razões daquela pesquisadora, não compreendi muito, mas respeitei, claro. Defendo que opiniões diferentes são importantes em uma sociedade, não gostaria de viver sob um olhar único, isso seria ditadura.


Contrariando todos aqueles estudos, e outros a que tive acesso depois, continuei lendo para as crianças da minha família os clássicos, do jeitinho que eles eram quando eu era a criança a ouvir. O mesmo se deu com algumas das musiquinhas que cantavam para me adormecer quando eu era muito pequenina. Não me lembro de cantarem para mim, mas sendo a irmã mais velha, ajudei a cantar para as mais novas.


Lembro-me de ficar imaginando o boi da cara preta. Mas tem boi com a cara de outra cor? E quando será que a Cuca viria pegar? Não viria, porque dormíamos loguinho. Não por medo da tal Cuca, mas porque aquela melodia fazia nossos olhos se fecharem tão rápido quanto as ouvíamos. Confesso que algumas vezes me imaginei atirando o pau no gato, mas isso nunca aconteceu, por muitas razões, uma delas, talvez a mais importante, era porque os heróis não fariam isso.


Não conheci, até hoje, alguém que tenha realmente se traumatizado com qualquer dessas cantigas tradicionais, tampouco que se tornara cruel depois de ouvir os contos infantis e de fadas. Mas o fato é que, cada vez mais, querem tirar essas tradições da infância. Se houver um motivo aceitável que me digam.


Para muito além do politicamente correto, aprecio muito novas versões para clássicos infantis, desde livretos bem pequenos até os filmes que vão para os cinemas, sem ignorar as séries, tão em alta no momento, que promovem releituras inimagináveis: adorei ver a Malévola sendo boa. Mas, daí a retirar beijos que salvam princesas, ou não mostrar que a maldade existe entre os homens, é uma forma de evitar que as crianças vejam o inevitável.


Desnecessário, além de ser um desserviço à tradição da literatura.


Vou continuar respeitando todas as leituras possíveis. Quem não quer contar as versões consagradas às crianças que não o façam, mas saibam que as estão privando de crescer reconhecendo o mundo em que vivem, de forma a poderem analisá-lo e fazerem suas próprias escolhas.


Continuo sendo apaixonada pelos contos de fadas, com um lindo príncipe que salvava a bela princesa do perigo. Mas amei ainda mais “Para sempre Cinderela”, em que Ella salva o príncipe, além disso, nunca fiquei esperando por um príncipe, sempre lutei pelos meus objetivos e derrotei os meus dragões.


 E, contra todos os estereótipos, apaixonei-me, perdidamente, por “Frozen”, em que o verdadeiro amor é o que existe entre duas irmãs. Talvez porque tenho três que tornam a minha vida muito mais agradável. Mas tenho um grande amor, um amor verdadeiro, o qual eu cultivo todos os dias.


E não tenho gato, porque não me dou bem com os pets, mas já não quero mais atirar o pau neles, que eles permaneçam livres. Talvez um dia eu tenha um cachorrinho, quando ceder aos apelos insistentes de dois pequenos tesouros que tenho em casa, para quem posso ler todos os clássicos, e os modernos, posso cantar como eram na minha infância e também nas versões mais recentes.


Influencia muito mais o caráter de uma criança quem lê para ela, do que “o que” leem para elas. E mais que isso, permitir que as crianças possam dialogar sobre as histórias, falar suas impressões, mostrar seus entendimentos, questionar suas dúvidas isso sim ampliará não apenas seu vocabulário, mas também seu entendimento sobre o mundo e as pessoas que vivem nele.

Elizânia Azanha é professora de Redação

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