O despreparo escancarado

Por Elizânia Azanha 18/01/2021 - 14:31 hs
O despreparo escancarado
Elizânia Azanha é professora de Redação

A maratona de vestibulares não é recente. Há muitas décadas, concluintes do Ensino Médio precisam enfrentar uma série de provas, diferentes, em busca de uma vaga na tão sonhada universidade pública, além, é claro, de todos as outras provas para as universidades privadas, uma vez que o número de vagas das redes estaduais e federais nunca fora suficiente para a demanda de alunos egressos do ensino básico.


Na década de 90, do século XX, fui um desses candidatos exauridos ao final da realização de todos os vestibulares a que me inscrevi na busca pela minha vaga. Três dias consecutivos de provas da UNESP, e eu ainda tive de conciliar com o horário de trabalho (sim, aos 17 anos eu já trabalhava com carteira assinada), dois domingos de FUVEST, um domingo de UNICAMP, mais alguns sábados e domingos da rede privada.


Ufa, não foi nada fácil. Por isso me compadeço dos candidatos todos os anos, muitos deles meus alunos do Ensino Médio ou do curso de redação. Quando em 2009 o Enem se tornou uma prova para ingresso nas universidades Federais, considerei a ideia muito positiva, pois seriam algumas provas a menos para os candidatos. Confesso que ainda vejo essa prova com bons olhos, quisera eu ter tido essa oportunidade 24 anos atrás. Não prestei nenhuma federal porque era caro ir fazer a prova longe de casa, o Enem é realizado na cidade do candidato, ou muito próximo a ela.


Continuo defendendo o Enem, apesar de vê-la como uma prova muito mais de resistência, que de conhecimento. Razão pela qual, em todas as edições, a abstenção fica em cerca de 30% no segundo dia, já que muitos candidatos, além de razões pessoais, acabam por desistir de realizá-la ao perceberem a dificuldade de se responder a 90 questões em 5h30, e ainda escrever uma redação.


Estamos falando de uma prova com dimensões espetaculares, este ano foram 5,8 milhões de inscritos, e esse é o número aproximado das edições anteriores. A título de curiosidade, a Suíça tem uma população de 8,5 milhões de habitantes.


Dadas as dimensões dessa prova, sua importância para o ingresso em todos as instituições federais, ter sua nota como acréscimo para muitas estaduais e ainda ser a nota utilizada por grande parte das instituições privadas para ingresso do aluno, bem como bolsas para auxiliar no pagamento das mensalidades, faltou humanidade este ano.


Apenas no primeiro dia da prova, 51% dos inscritos não fizeram o Enem. Sabe-se que parte desse montante sequer compareceu à escola, por motivos diversos que não nos cabe julgar, mas precisamos julgar a incompetência dos órgãos federais que impediram candidatos de realizarem o Enem por falta de espaço físico disponível. Ora, sabíamos dos protocolos de segurança há meses, houve, sim, tempo hábil para uma ação efetiva que garantisse a todos os candidatos que chegassem até a escola no horário realizarem a sua prova.


Mas são muitos os relatos de candidatos que foram impedidos de entrar na sala porque já havia tingido o número máximo, mas o nome dele estava lá, então quem errou? Outros relatam que não havia ventilação e, por medo, acabaram deixando a sala sem concluir a prova. As escolas são geridas por quem mesmo? Não é frequentada por alunos? Não há aulas nessas salas? Vejam as condições em que se encontram as escolas.


E agora, José? A festa acabou... e quando esses jovens, que se prepararam por, ao menos, 3 anos terão outra oportunidade de realizar o Enem? Ainda que lhes seja oferecida outra data para a edição 2020 do Enem, a agonia já começou, a ansiedade tomará conta deles mais uma vez e, ainda, correm o risco de ter a prova agendada junto com outro vestibular, já marcado há meses, como ocorrera em 2018, quando a data fora alterada em razão do 2º turno das eleições presidenciais (ninguém previu que haveria 2º turno) e acabou prejudicando alunos que tinham inscrições feitas em universidades. Tiveram de escolher: Enem ou a outra...


Quero acreditar no Enem. Desejo que a maratona fosse cessada e que os candidatos pudessem fazer uma única prova, mas assim não dá. Unicamp dividiu em dois dias o vestibular e dobrou o número de salas; Fuvest aumentou em 70% as salas de aplicação; Unesp aplicará a prova em dois dias, para reduzir o número de candidatos por sala. E o Inep acreditou que muitos candidatos não iriam. Vergonha na educação. Vergonha na gestão. Vergonha de acreditar que estavam preparados.


Elizânia Azanha é professora de Redação

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