As mentiras de Rossieli

Por Professora Bebel 22/02/2021 - 10:38 hs
As mentiras de Rossieli
Professora Bebel é presidente da Apeoesp e deputada estadual


 

Não é de hoje que se questiona a estatura do secretário de Estado da Educação, Rossieli Soares para ocupar um cargo tão importante no Poder Executivo de São Paulo. A grandeza e o conjunto de virtudes que se esperam de homens e mulheres públicos não são encontradas no titular da pasta da Educação paulista: liderança, compromisso com a verdade, capacidade de articulação, disposição ao diálogo, mesmo com quem pensa diferente.


Liderar é "vestir a camisa". E, no caso específico de quem está à frente da Secretaria de Educação, esse "vestir a camisa" significa, com a pandemia da COVID-19 em franca aceleração, encampar uma defesa pública e intransigente da prioridade aos profissionais da Educação no Plano Estadual de Imunização. Rossieli, na oportunidade que teve de falar sobre o tema no programa Roda Viva, preferiu desconversar e dizer que não há vacina para todos.


Mentira: o que há é uma decisão política de excluir esse público da relação prioritária. Afinal, por que vacinar profissionais de saúde de clínicas particulares - muitos dos quais atendendo online e sem contato com aglomerações - e não os profissionais da Educação, que estão sendo enviados à linha de frente de escolas sem condições de recebê-los com segurança?


Ter compromisso com a verdade, por sua vez, é atender a um pressuposto básico da democracia: a transparência. Sem transparência, não há relação de confiança possível entre sociedade civil e Estado. E sem confiança, a liderança deixa de ser legítima. Ora, quando Rossieli fala que 90% dos professores voltaram às salas de aula, ele mente. De acordo com dados do DIEESE, obtidos diretamente do Cadastro Funcional da Educação, há, hoje, na rede pública, 15.101 professores com 60 anos ou mais, dos quase 192 mil docentes do Estado. Dados do jornal O Estado de São Paulo, por sua vez, apontam que 43.000 docentes informaram ter comorbidades, estando dispensados de retornar.


A conta não fecha. Somando os números, são cerca de 58 mil professores, mais de 25% do total de docentes da rede. Em adição a esses, há ao menos 15% de professores em greve, o que eleva a conta para, no mínimo, 40% de ausentes. Se a "volta às aulas" não fosse para inglês ver, por que o Estado não efetuou novas contratações, optando, como se sabe, por juntar salas?

Aliás, qual é o sentido de enviar professores às salas de aula sem cobertura vacinal ou proteção adequada se, de acordo com a SEDUC, somente 40% dos alunos que poderiam voltar (35%) o fizeram? Esse número, aliás, parece nova invenção de Rossieli, porque há relatos de inúmeras escolas praticamente vazias.


Todo esse cenário é produto da incapacidade de articulação e da aversão ao diálogo que marca a atual gestão da SEDUC. No mesmo dia em que foi anunciado o cronograma do Plano Estadual de Imunização de São Paulo, a APEOESP oficiou ao Governo do Estado com requisição para que os profissionais da Educação fossem incluídos no grupo prioritário da vacinação. O raciocínio é simples de ser demonstrado: se a Educação é considerada serviço essencial, tal como é a Saúde, por que não vacinar seus trabalhadores que majoritariamente lidam com grupos grandes de crianças e se deslocam na cidade utilizando transporte público?.


Desde setembro, a APEOESP disponibilizou à SEDUC um estudo elaborado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil e pelo DIEESE, contendo diretrizes técnicas para escolas saudáveis. O objetivo do estudo era contribuir com a adaptação da infraestrutura das escolas, a partir de recomendações feitas por entidade técnica de elevada reputação.


O estudo foi rejeitado em tom negacionista por Rossieli, que ignora a existência de salas sem ventilação e unidades de ensino sem condições de receber alunos na pandemia da COVID-19 e, principalmente, as evidências científicas que mostram que as escolas são locais de grande risco de contágio pelo SARS-COV2. Aliás, dados recentes da APEOESP mostram que mais de 750 professores já se contaminaram na volta às aulas. Será preciso esperar mortes para que ele reveja sua sanha genocida?


O que move Rossieli não é o aperfeiçoamento da educação paulista. É a mesquinharia de uma briga ideológica deflagrada contra o sindicato dos professores. Ele sequer o faz por meio do debate de ideias: prefere tocá-la utilizando profissionais da Educação como bucha de canhão. O seu lugar, entre os secretários de Educação, não será o de quem lutou bravamente para apoiar seus professores, mas o de quem ignora a saúde e a vida daqueles que ele deveria liderar.

 

Professora Bebel é deputada estadual  pelo PT e presidenta da Apeoesp