Por que tenho inveja?

Por José Renato Nalini 29/03/2021 - 15:03 hs
Por que tenho inveja?
José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Uninove e presidente da Academia de Letras

O que significa ter inveja? A inveja é a consciência dolorosa ou ressentida de vantagem que só o outro tem, acompanhada da vontade de também usufruir dela. A inveja, paradoxalmente, é emoção que nada tem de invejável. Ao contrário, ela é medrosa, sombria e com insaciável apetite. Os efeitos corrosivos da inveja são a maledicência, a delação, a difamação, a rivalidade, os desentendimentos, o ódio e o ciúme.


Nenhuma a possibilidade de separar os humanos entre invejosos e não invejosos. Uma certa inveja, todos podem experimentar. Invejo a beleza alheia, a riqueza do outro, seu brilho, sua fama. Somos insatisfeitos e gostaríamos de ser diferentes. Há uma espécie de inveja saudável: o sentimento pode ser o impulso para que nós também consigamos obter aquilo que invejamos em outrem.

           

É próprio aos humanos sentirem-se superiores a outros, em certos aspectos, mas também inferiores sob outros aspectos. Em regra, o que nos machuca são nossas inferioridades. Nem sempre temos equilíbrio afetivo para encarar com naturalidade as fissuras que nos caracterizam. O ser humano é frágil, efêmero, imperfeito. Se cultivarmos a inveja, teremos dentro de nós um verme venenoso, que acaba conosco.

         

A palavra “inveja” deriva do latim “invideo”, cujo significado é “olhar obliquamente”. Quem olha obliquamente, “de lado”, olha maliciosamente. O invejoso não atua, mas se entrega à intriga, às insinuações, às falas ambíguas. Age desonestamente: pelas costas. Evita o olhar direto, a franqueza, a hombridade. Por isso é que o invejoso nos lembra a serpente: fria, escorregadia, traiçoeira e letal.

           

Comparo a inveja – e isso pode servir para outras máculas da máquina humana – a consumir um veneno, esperando que outra pessoa morra em nosso lugar. Na verdade, quem morre é o invejoso. Que deveria ser sensato e reconhecer que o sol nasce para todos. Há lugar para os humanos, com suas peculiaridades, em qualquer lugar do planeta. Contentar-se com o que tem e procurar invejar caráter, honra, boas qualidades e virtudes, é o remédio para quem se corrói de inveja do outro.

 

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE E Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.