Agora tem nome

Por Elizânia Azanha 29/03/2021 - 16:19 hs
Agora tem nome
Elizânia Azanha é professora de Redação

Há um ano vivemos uma quarentena... quarentena que deveria ter durado 40 dias, mas que se prolongou por semanas, que viraram meses e que, quando parecia finalmente estarmos nos aproximando de um novo normal, tudo deixou de ser normal... Estávamos nos animando com a queda progressiva do número de pessoas infectadas pela COVID-19, queda nos números de mortes diárias, mas, de repente, isso tudo virou passado, os números voltaram a crescer, mais e mais pessoas infectadas, mais e mais hospitais anunciando falta de leitos, falta de equipamentos, falta de medicamentos, falta de pessoal da área médica para atender a tantos novos casos.


Parece que estamos vivendo um filme de terror, daqueles que demoram a acabar e cada vez que se tem a sensação de que o horror acabou, ele volta com mais pavor. O problema é que neste filme, somos personagens, alguns de nós protagonistas, mas não temos nem script, nem roteiro, sequer sabemos qual será o desfecho dessa história.


Mais dolorido ainda é notar tantos brasileiros e brasileiras a se recusarem a ver o horror que estamos vivendo. Surgem posts nas redes sociais buscando promover esse entendimento na população: “só quando for alguém da família em um caixão para as pessoas entenderem a gravidade da COVID-19”. Triste, chocante, beira ao sensacionalismo, mas trata-se, inegavelmente, de um mal necessário, já que ainda há tantos que se recusam a aceitar o grau de periculosidade desse vírus pandêmico.


Que vivemos em um país pobre, todos sabemos, e não quero fingir que estamos em outro lugar. Sabemos que o comércio, assim como os restaurantes, a indústria e todos os prestadores de serviço precisam manter suas portas abertas para produzir o salário de milhões de brasileiros. Sabemos que a economia não pode parar, pois sem dinheiro mais pessoas descerão ao nível da miséria, mas não é lutando contra medidas protetivas de saúde que sairemos dessa conjuntura gravíssima.


Faz-se urgente que se eliminem os embustes e passemos todos a propagar apenas as verdades, não importa de qual lado da educação, da economia ou da política estivermos. A verdade é uma só e, por pior que ela seja, conduz a uma possibilidade de solução. Ao contrário disso, cada vez que alguém se dá o desserviço de divulgar uma mentira, todo um trabalho é derrubado por terra, e anos de estudo parecem ser tempo perdido em frente a um jogo de interesses pessoais.


Não aprendemos com quem sofreu antes os efeitos maléficos dessa pandemia, em vez disso, replicamos alguns erros e criamos outros. Também não quero mais estar presa dentro de minha casa, quero sair, rever amigos (e abraçá-los), beijar meus pais e irmãos, correr pelo parque (sem máscara no rosto), levar meus filhos à escola (lugar onde sempre acreditei que estariam seguros e onde seus amigos estão), mas quero antes de tudo isso a segurança de não perder a minha vida ou a daqueles que amo. E, por mais cruel que pareça, as mortes estão cada vez mais perto de nós.


Ouvi recentemente que já é hora de levarmos a sério, porque antes tínhamos números de mortos, agora esses mortos têm nome, e seus rostos estão nas nossas listas de pessoas queridas. Será que assim, diante dessa tragédia com um nome conhecido, pararemos de achar que é tudo uma “conspiração” e vamos aceitar que é urgente fazermos a nossa parte? Ou vamos esperar que mais nomes estejam nessas listas? Nomes que, ainda não nos sendo familiares, deixam pai e mãe, deixam filhos e filhas, deixam esposa, marido, amigos. Não podemos dizer que “agora tem nome”, sempre teve nome, endereço e laços que se romperam dolorosamente, sem chance de lutar.


Havia, um ano atrás, um grupo de risco, agora o risco é de todos, porque já não se pode eleger dados específicos, a cada dia mais e mais pessoas que não possuíam comorbidades, que tinham vidas e corpos saudáveis, até mesmo atletas, estão sucumbindo a esse mal do século XXI. Ou todos nos unimos contra ele, ou ele nos vencerá. De que lado você está nesta guerra?


Elizânia Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com