Em casa ou na escola? Parte 1

Por Elizânia Azanha 12/05/2021 - 16:49 hs
Em casa ou na escola? Parte 1
Elizânia Azanha é professora de Redação


Volta ao cenário nacional a discussão sobre a validade do homeschooling, termo inglês para se referir ao método de aprendizagem realizado em casa, sem frequência escolar. Desde o início do atual governo federal, discute-se a possibilidade da liberação para que pais possam ensinar conteúdos escolares a seus filhos em casa. E, obviamente, as opiniões se dividem. Mas, não se trata, apenas, de uma questão de opinião pessoal, mas de se analisar benefícios e desvantagens desse método de educação.


Gosto do ditado que diz que “em time que está ganhando não se deve mexer”, contudo, gosto ainda mais do que defende Eráclito, filósofo grego que viveu no século V a. C., ao dizer que “não se pode um homem banhar-se duas vezes no mesmo rio”: primeiro porque as águas passam, mudam; segundo, porque o homem se transforma o tempo todo. Olhando assim, mudar o que se consolidou, há séculos, como a principal instituição de ensino parece bastante aceitável, no entanto, não é à toa que a escola tornou-se essa referência, uma vez que até não muito longe a educação era realizada em casa, em especial para as meninas, que não podiam frequentar as primeiras unidades escolares.


Estamos então diante de uma questão muito delicada: é bom ou não é o homeschooling? E mais: é bom ou não é ir para uma escola regular?


Pensemos nas vantagens do homeschooling: você estuda na sua casa, no melhor horário para você e ainda pode escolher o que e quando vai estudar. Isso parece bom. Mas não é exatamente contra isso que estamos lutando nesse período de pandemia? Tem sido fácil ter os filhos em casa, tendo aulas no horário que cabe na agenda dos pais? Tem sido produtivo?


Há incontáveis pais e mães reclamando porque não conseguem acompanhar os estudos dos filhos em casa, por diversas razões: horários se chocam com os do trabalho, reuniões surgem e atrapalham o cronograma pensado, a criança não dá a atenção que (o pai ou mãe acha que) deveria aos estudos, a criança de distrai facilmente, os pais desconhecem as metodologias atuais e, por isso, têm dificuldade para ajudar os filhos.


Claro que essas são situações que afetam com maior impacto as crianças menores, a partir de determinada idade eles ganham autonomia e já não recorrem mais aos pais, viram-se como podem. E esse “viram-se” está sendo suficiente para garantir aprendizagem?


Você pode estar pesando que eu só olho a parte ruim. Então vamos olhar a parte boa: há crianças que se adaptaram muito bem às aulas em casa (on-line ou não), cujos pais têm grande facilidade com a pedagogia infantil e também com os conteúdos a serem ensinados, sem contar que a criança tem uma atenção fabulosa para as aulas.


Não se trata de utopia, mas de realidade. Há, de fato, a presença desse contexto lindo em vários lares brasileiros, pena que eles são a minoria.


Ao conversar com professores das redes pública e privada, ouvimos relatos de pais que não conseguem garantir que os filhos realizem as tarefas, e essa tem sido a regra, não a exceção. Infelizmente, o número de pais que não estão conseguindo conduzir as aulas de seus filhos neste momento é extremamente grande. E, novamente, não pretendo julgar pais ou professores, quero apenas abrir uma reflexão sobre quanto a educação realizada em casa será mesmo eficiente.


E, caro leitor, precisamos, ainda, refletir sobre o maior prejuízo deste período para os alunos, de todas as idades: falta a interação social. Convencer um aluninho de 5 anos a realizar as tarefas junto com os coleguinhas, quando todos estão fazendo a mesma coisa, é infinitamente mais fácil que quando esse mesmo aluninho está sozinho em casa, sem a sua “turminha”, sem os amiguinhos que o incentivam, sem a figura da professora que, diferente da mãe ou do pai, se preparou para resolver os conflitos de aprendizagem.


Tenho ouvido pais e mães dizendo “não vejo a hora que meu filho volte para escola” e, antes de qualquer pré-julgamento, ouçamos suas razões: ele aprendia mais na escola; ele ficava mais calmo porque tinha com quem brincar; ele estava sempre alegre porque se divertia com os amigos; ele queria fazer as tarefas de casa para mostrar para a “Pro” (jeitinho lindo e carinhoso de se referirem àquela que lhes ensinava as letras e os números todos dias). Meu filho de 5 anos está em contagem regressiva para o dia de voltar para a escola. Será mesmo que estudar em casa faria bem a ele?


E para os grandes? Temos um caso de adolescente que estudou em casa e foi aprovada em uma das maiores universidades do país. Vamos falar sobre ela. No próximo capítulo desta novela brasileira.


Elizânia Azanha é professora de Redação

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