Em casa ou na escola? Parte 2

Por Elizânia Azanha 20/05/2021 - 19:31 hs
Em casa ou na escola? Parte 2
Elizania Azanha é professora de Redação


Estudar em casa pode dar certo? Pode. Não há dúvida. Mas para todos? Quando vamos à escola, temos professores especialistas. Pessoas que passaram (e passam) anos estudando sobre o que e como se deve ensinar em cada fase do desenvolvimento de um ser humano. Desde a infância, quando não se sabe ler ou escrever, mas podem ter outras habilidades desenvolvidas, algumas das quais, inclusive, serão fundamentais para o aprendizado da escrita; até o término no ensino básico, quando, já crescidos e alfabetizados, são expostos a diferentes conteúdos, com o propósito de lhes oferecer maiores conhecimentos.


À medida que os alunos crescem, passam a ter diferentes professores para diferentes disciplinas. Isso porque, há séculos, percebeu-se que é mais produtivo quando um professor se especializa em uma área do saber, do que quando ele é polivalente. Imagine as diferenças impostas às aulas de matemática e língua portuguesa, como esperar que o mesmo indivíduo domine todo o conjunto dessas duas áreas, a ponto de ensinar com maestria para alunos de 14 ou 15 anos.


Não estou, é claro, duvidando da capacidade de reter conhecimento de um adulto, que estudou por décadas os diferentes assuntos, mas em como ele poderia ensinar para adolescentes tudo o que é necessário para o seu desenvolvimento intelectual. A física precisa da matemática, mas não se pode exigir domínio de ambas de um único indivíduo, são 4 anos de ensino superior para cada uma dessas áreas, só para se ter um exemplo.


Existe um plano nacional que determina o que se deve ensinar aos alunos em cada etapa do seu desenvolvimento, que as escolas, há anos, classificam como séries. Vamos dar como aprovado o homeschooling, quem ensinará todo esse conteúdo para as crianças e adolescentes? Os pais? Ou pagarão professores particulares? (então vamos ter escolas em casa?). Acreditem, quero defender o homeschooling, mas está difícil.


Vamos a um exemplo. O livro Extraordinário, que gerou um filme homônimo, conta a história de um garoto que, devido a uma deformidade crânio-facial, pratica o homeschooling até os 10 anos (não vou me alongar nos detalhes, mas o livro vale capa página – o filme também). Quando ele vai para escola, contrariando a expectativa dos demais alunos, ele mostra que aprendeu muito mais em casa que aqueles que estavam na escola. Vejam, trata-se de ficção, mas nos EUA o homeschooling é legalizado e praticado por muitas famílias, e, de fato, muitas crianças aprendem muito em casa, talvez mais do que se esperaria de uma escola, contudo, não se pode ignorar o fato de que a mãe (na história de “Extraordinário”) parou de trabalhar e cessou sua pesquisa universitária para se dedicar aos cuidados e à educação do garoto. É um caso de familiar com conhecimentos suficientes para ensinar uma criança em casa. A pergunta que não quer calar: todos os pais têm?


Saindo da ficção e avançando na idade do estudante, temos o caso de uma adolescente, com 17 anos, da cidade de Sorocaba, que não frequentou escola durante o ensino médio, estudou em casa e foi aprovada em uma das mais concorridas universidades do Brasil. Para ela funcionou. Funcionaria para todos os adolescentes de sua idade?


Sim, o homeschooling pode ser uma opção, desde que muito bem regulamentada e fiscalizada. Quem ensinará as crianças ou adolescentes? O que deverá ser aprendido em determinado período? E, a meu ver, o mais importante: qual o propósito de se estudar em casa, sem o convívio social tão importante para todas as pessoas, em especial, para as crianças e os adolescentes?


Vimos há tempos falando sobre os problemas causados pelo individualismo, mas será que essa prática de educação em casa não aumentará essa problemática? E a tolerância? Vamos evitar o contato com o diferente? Mas e tudo que aprendemos com as diferenças?


Temo, verdadeiramente, que a aprovação do homeschooling no país seja mais uma forma de segregação. Pior, seja mais uma desculpa para aumentar as desigualdades, se não houver regras muito claras para que apenas estude em casa aqueles que, de fato, possuírem as condições necessárias para garantir aprendizado justo. Mas isso também não seria desigualdade?


Elizânia Azanha é professora de Redação

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