Belo Monte dos mortos

Por José Renato Nalini 11/08/2021 - 12:48 hs
Belo Monte dos mortos
José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Uninove e presidente da APL

O genial Euclides da Cunha foi o jornalista enviado pelo Estadão para acompanhar o episódio que hoje conhecemos por “Canudos”, mas que ele chamava de Belo Monte.

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A narrativa desse episódio cruento, em que os seguidores de Antônio Conselheiro foram trucidados de forma inclemente, ainda suscita muitas dúvidas.


Euclides da Cunha prestigiou a ação do exército, mas reavaliou o conceito daqueles “jagunços”, reconhecendo que eles foram vítimas praticamente indefesas, diante da manifesta desproporção entre as forças em conflito. Mulheres, crianças e idosos de um lado, cuja defesa era entregue a homens em sua maioria desarmados, e de outro as forças regulares do exército e das polícias de vários estados.  


A visão inicial de Euclides era de que o movimento fora gerado por revolta antirepublicana de adeptos da monarquia. Quando chegou ao arraial de Belo Monte, viu que não era nada disso.   


Desde 1902 já se sabia que Antônio Conselheiro não representava qualquer perigo para a República. Ele era uma espécie de anarquista, não queria o retorno da monarquia, mas apenas iniciar uma nova civilização, muito próxima àquela que caracterizou os primeiros cristãos. Vida em comunidade, sem propriedade privada e com a repartição de encargos e bens de forma equânime.


Toda forma de anarquismo incomoda o Estado, quando este se esquece de que é instrumento para servir aos homens, e não finalidade em si mesmo. Pessoas convivendo sem a necessidade do aparato estatal, dispensando os préstimos do governo, representam perigo para os que se intitulam donos da nação.


Daí a insensibilidade evidenciada pelos que mandavam na primeira República: eliminar qualquer resquício dos fanáticos. Não poupar uma só alma. Simultaneamente, construir narrativa impressionante, capaz de amedrontar a legião enorme dos que não querem enxergar o que acontece, preferem permanecer à margem e não se interessam pelos acontecimentos que não os afetem de maneira direta e imediata.


Aos poucos a verdade resplandece. Apenas isso costuma acontecer muito tarde, quando já não há o que fazer. Belo Monte ou Canudos colecionou inúmeras mortes. Seriam poupadas se o governo fosse exercido por humanistas.


José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras -gestão – 2021 – 2022.