Tomei losartana por 30 anos

Por José Renato Nalini 02/05/2022 - 12:06 hs
Tomei losartana por 30 anos
José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da APL


Durante trinta anos consumi losartana potássica mais hidroclorotiazida, 50 mg + 12,5 mg pela manhã e losartana potássica 50 mg à noite. Ambas do laboratório Medley.


Eis senão quando, vejo meia página da mídia espontânea fazendo “recall”. Suspeita de que o medicamento poderia ser cancerígeno.


A empresa farmacêutica Sanofi Medley anunciou que recolheria do mercado os lotes desse remédio de que todos os que sofrem de hipertensão se utilizam.


Mais nada. Ainda fui à farmácia mais próxima, com a intenção de devolver as caixas de que ainda disponho. Não receberam.


São coisas que assustam. Como é que uma empresa chega ao ponto de produzir medicamentos com impurezas causadoras de mutações e aumentar o risco de câncer?


Depois dessa publicação, nada mais. É fácil dizer que é preciso tomar cuidado ao interromper a medicação, porque a descontinuidade abrupta é maior do que o risco potencial apresentado pela impureza. Mas o paciente fica alarmado e com razão.


Essas ocorrências deveriam ser imediatamente corrigidas mediante recolhimento ou indicação de lugares para que os consumidores pudessem entregar seus lotes e, com toda a legitimidade, receber produto análogo, adquirido pela empresa a outro laboratório.


Veja-se que a propalada “defesa do consumidor” resta bem abalada nesse caso. Uma publicação de meia página. Quem é o leitor assíduo dos jornais. Uma parcela esclarecida da população. Mas a pressão alta não escolhe a sua clientela preferencial. Ela acomete pobres, miseráveis, desempregados, analfabetos, carentes de toda a sorte.


São exatamente esses os que mereceriam cuidado especial por parte de quem está no mercado e se sujeita às vicissitudes que ele acarreta.


Enfim, como fica aquele hipertenso que durante três décadas foi assíduo comprador de losartana, consumiu-a regular e religiosamente, recebe esse aviso que, por acaso, foi lido. Não conseguiu devolver a quantidade de comprimidos que já havia adquirido, pois remédio de uso contínuo e fica sem saber o que fazer, além do justificado receio de estar mais sujeito a ter câncer do que os demais?


Existe mesmo o Código de Defesa do Consumidor brasileiro?

 

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.