Como Amanda Oliveira está combatendo a exploração sexual de meninas e mulheres nas periferias

Por Roberto 11/05/2021 - 12:19 hs

Como Amanda Oliveira está combatendo a exploração sexual de meninas e mulheres nas periferias
Empreendedora social Amanda Oliveira, CEO do Instituto As Valquírias


Para Amanda Oliveira, CEO do Instituto As Valquírias, a pandemia vem agravando problemas históricos encarados por mulheres

 

Amanda Oliveira conhece bem como é viver com a ausência de seus direitos básicos: nascida em uma favela de São Paulo, ela cresceu vendo a enchente atingir o barraco onde morava e assistiu, rotineiramente, a mãe fazer uma refeição para que ela e as irmãs fizessem duas. Aos três meses de vida, caiu com o rosto dentro da água fervendo quando o pai cochilou durante uma inalação caseira. As irmãs foram abusadas sexualmente por um tio e as provocações decorrentes do acidente que cicatrizou seu rosto se tornaram comuns. Quando chegou em São José do Rio Preto, cidade do interior de São Paulo para onde se mudou com a família aos 6 anos, Amanda levava consigo as marcas da pobreza, do bullying e da violência. Não demorou para perceber que estava morando em um bairro dominado pelo tráfico de drogas e com alto índice de prostituição infantil. 


 
Em meio ao caos, porém, havia esperança: Amanda foi matriculada em um projeto social a poucas quadras de sua casa – foi quando a menina pobre de São Paulo ressignificou a realidade em que estava vivendo e transformou suas dores em bandeiras para levar sua missão pro mundo: educar meninas para torna-las grandes mulheres. Hoje, aos 31 anos, Amanda Oliveira é CEO e fundadora do Instituto As Valquírias, ONG que integra a Rede Gerando Falcões e figura como a principal organização filantrópica brasileira dedicada à promoção social de meninas e mulheres periféricas, acumulando um total de 18 premiações, dentre elas um reconhecimento internacional concedido pela renomada empresária Carolina Herrera e uma homenagem no palco do Caldeirão do Huck, da Rede Globo.


 
Amanda define o Instituto As Valquírias como uma “distribuidora de oportunidades” para meninas e mulheres de baixa renda. “Levar a elas educação e conhecimento sobre seus direitos tem sido uma ferramenta poderosa de combate contra a exploração sexual”, explica a fundadora da organização, cujo nome faz referência à uma mentora do projeto que frequentou ainda criança. Ao projeto, ela atribui ainda a razão pela qual não se tornou mais um número nas estatísticas do bairro. “Eu não fui explorada sexualmente porque o projeto social que frequentava me ensinou sobre meus direitos”.


 
A importância dessa atuação se intensificou durante a pandemia da Covid-19: Rio Preto é uma das cidades com lockdown mais rígido no país, devido ao grande número de casos registrados no município. A Assistente Social do Instituto, Amanda Caldas diz que seus atendimentos aumentaram. “Há anos As Valquírias trabalha com um canal aberto de escuta, com o objetivo de ajudar essas meninas e mulheres a quebrarem o silêncio e, nesse momento de isolamento social, as queixas e pedidos de socorro aumentaram”, revela Caldas.
 
O aumento de casos testemunhados pelo Instituto durante a pandemia vem para somar a uma equação já problemática: degundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o tráfico de pessoas faz cerca de 2,5 milhões de vítimas, movimentando, aproximadamente, 32 bilhões de dólares por ano. A exploração sexual é a razão mais frequente para o tráfico de pessoas (79%). De acordo com a Childhood Pela Proteção da Infância, no Brasil, são 500.000 casos de exploração sexual por ano. “É um problema que não escolhe classe social, mas atinge, principalmente, meninas de baixa renda”, destaca Amanda Oliveira. “Precisamos entender que essa também é uma demanda de grande urgência. Precisamos agir.”


 
A urgência que o problema exige tem sido a tônica do trabalho do Instituto As Valquírias: por ano, são servidas 98 mil refeições; 7 mil atendimentos diretos e indiretos mensalmente; 38 programas sociais nas áreas de Educação, Qualificação Profissional e Cidadania – sempre com foco em meninas e mulheres da periferia. Ainda assim, Amanda Oliveira acredita que ainda há muito avanço a ser feito. “Os problemas enfrentados pela mulher de periferia ainda é um assunto que ninguém quer se meter. Quando relatamos casos de violência e abuso, ouço: ‘Prefiro nem saber’. Na medida em que a sociedade tapa os olhos para não encarar essa dolorosa realidade, a demanda vai aumentando”, analisa.
 
Mulher, nascida na favela, CEO. Amanda Oliveira conhece bem a dor de ter seus direitos negados. Conhece, ainda mais, o poder que existe quando uma mulher se levanta e reivindica seus direitos. “As leis dos Direitos Humanos precisa sair do papel e essa escravidão moderna precisa acabar. Fortalecer meninas para que não caiam nessa armadilha é o nosso papel”.