Vamos ler gibis

Por Elizânia Azanha 28/02/2020 - 09:35 hs
Vamos ler gibis
Elizânia Azanha é professora de Redação

Um jornal paulistano de grande circulação publicou hoje (ao menos em sua versão digital, já não leio mais os impressos, acho mais cômodo acessar um aplicativo que ir à banca...) um conjunto de 20 tiras do Calvin e Harold, do cartunista americano Bill Watterson, para refletir sobre nossas vidas. Li todas; amei algumas; gostei de outras; algumas poderiam ser melhores. A questão é que, de fato, todas propõem uma reflexão acerca de nossas vidas, como aquela de 1995 em que Calvin propõem uma metáfora da vida fazendo malabares com ovos, para dizer que não é fácil dar a mesma e necessária atenção a todos os aspectos de nossas vidas, inevitavelmente, alguns ovos, quiçá todos, se quebram.


Sugiro a leitura, a reflexão, a ousadia de pensar sobre cada uma delas. Tiras como essas são muito frequentes nas provas de vestibulares, o próprio Enem traz várias delas em todas as suas edições. Sim, o candidato que consegue interpretá-las adequadamente leva a melhor. E, se você já passou dessa fase, leia mesmo assim para se manter alerta sobre mensagens que ficam ocultas em determinados discursos, mas que valem muito além das palavras ditas ou escritas.


Por que falar sobre isso? Porque, ao ler alguns comentários no site do referido jornal, assustei-me ao observar leitores dizendo que nada entenderam das tiras, ou ainda que não se pode associar os diálogos dos quadrinhos às falas de pessoas comuns brasileiras. Oras, ler é um exercício. Não se compreende bem um texto a menos que haja predisposição para trabalhar essa leitura.


No artigo anterior falei sobre analfabetismo funcional. Eis aqui o melhor exemplo sobre essa triste realidade de nosso país: pessoas leem, mas não conseguem compreender o que fora dito, ou associar tais palavras à sua realidade. Culpa delas? Não. Culpa de um sistema que há anos entrega diplomas, mas não garante conhecimento.


Acredito que educação seja um processo ininterrupto e inacabado, começa quando aprendemos a reconhecer o mundo à nossa volta, passa pelas primeiras palavras (não me refiro ao papai / mamãe), àquelas que a criança sabe mesmo seu significado (para mim o não é uma delas: já observaram o olhar de uma criança de um ano quando alguém lhe diz não? E sua atitude? É lindo de ver! As palavras estão finalmente fazendo sentido.) e vai ao longo da existência de qualquer indivíduo, pois nunca paramos de aprender.


Então, começamos a aprender em casa! Pois bem, eis porque falar sobre tiras de jornal. Você leu gibis na infância? Quais? Quantos? Com que frequência? Minha resposta é fácil: sempre, todos os dias, turma da Mônica e do Pato Donald eram os favoritos. Minha grande alegria era o dia em que o carteiro trazia meu pacotinho verde... 5 gibis dos hoje Ducktales. Eu passava horas lendo e relendo aquelas revistinhas, sozinha ou com minhas irmãs menores. Quando minha tia chegava com uma da turma da Mônica, ah... mais horas de alegria. Acontece que quando faço essas perguntas aos meus alunos, adolescentes, muitos não tiveram esse hábito cultivado e o prejuízo é este: dificuldades para compreender as tirinhas de jornal.


Eu disse, e repito, prefiro ler num aplicativo a ir a uma banca de revista. Mas compro as revistinhas para meus filhos. Elas não chegam em casa, porque, ironicamente, minha filha quer ir à banca e escolher a revistinha... Ensinamos isso a eles. Há uma banca entre a nossa casa e a feira, onde compramos hortaliças e legumes frescos toda semana, então ela guarda todas as moedas para poder comprar uma revistinha por semana (era a minha assinatura, feita por minha mãe), e depois troca com as amiguinhas para ler mais de uma.


Talvez uma revistinha toda semana seja caro para essa população das periferias que, segundo alguns, não tem o mesmo diálogo do Calvin e Harold. Mas estou certa de que se as escolas incentivarem esse hábito de ler gibis toda semana, e mantiverem gibis para as crianças lerem (papel do governo e dos diretores de escola), poderemos garantir muita leitura para a criançada. E as vantagens são infinitas.


A primeira delas é formar um Brasil de leitores, porque começamos com as revistinhas e depois queremos ler o mundo, lemos os livros pequenos e os grandes, porque ler é um hábito que, uma vez adquirido, dificilmente se perde.


Segundo, os gibis nos ajudam a ler nas entrelinhas, nos incitam a compreender o que as ilustrações mostram além das palavras e, assim, quando maiores, lemos as tiras, qualquer que seja, e nos tornamos capazes de compreender o humor que elas trazem. (Como professora de Português adoro falar sobre esse humor...)


E, finalmente, quando incentivamos crianças a lerem gibis, oferecemos a elas a possibilidade de conhecer o mundo pelos olhos de um cartunista, de um ilustrador, de um escritor, de uma pessoa, enfim, que luta por mostrar ao seu público mais que belas histórias, mostrar o mundo como ele é, às vezes diferente do que gostaríamos que fosse.


E com mais leitores, acredito mesmo, teremos mais pessoas não apenas alfabetizadas, mas capazes de interpretar melhor o mundo à sua volta. Dispostas a opinar sobre o que veem e ouvem ao seu redor. Preparadas para analisar o que ouvem e leem, além de melhor pensarem naquilo que falam, seja para não magoar alguém, ou para encantar. “Penetra surdamente no reino das palavras./Lá estão os poemas que esperam ser escritos./Estão paralisados, mas não há desespero,/há calma e frescura na superfície intata...”Carlos Drummond de Andrade.


Eu tenho um sonho: um sonho de um Brasil mais leitor, mais igualitário, mais humano, mais honesto, mais crítico. Onde crianças da periferia e dos centros leem juntas um gibi e seus pais discutem juntos o que um cartunista quer nos dizer numa tirinha de jornal. Onde essas crianças escrevem seus próprios textos e leem umas para as outras e todas recebem inúmeros aplausos.


Elizânia Azanha é professora de Redação

elizania.azanha@gmail.com