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Santa Bárbara,26/02/2024

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Fazendo justiça

Fazendo justiça


Acreditonão ser arrogância afirmar que minha existência foi devotada a fazer justiça. Afalível justiça humana, que trabalha com a verdade dos autos e não com averdade real. Motivo de compreensível angústia de quem se propõe a fazer ocerto e, muita vez, permanece na dúvida. Não teria sido manipulado pelaesperteza desenvolvida no processo, uma verdadeira arena de astúcias? A pugnacivilizada nem sempre observa a ética irrepreensível que o Código Nacional daMagistratura exorta os juízes a observar. No afã de vencer a lide, usam-se demúltiplas armas e artifícios, nem sempre todos afinados com o melhor dever ser.


Encerradaa trajetória na Magistratura, continuo a perseguir a senda do justo. Agora,tentando resgatar figuras históricas suscetíveis de julgamentos preconceituososou injustos.

 

Umadelas, pela qual sempre nutri simpatia – herança do convívio fraterno eproficiente com o incomparável Paulo Bomfim – é Domitila de Castro, a Marquesade Santos.

 

Consideradaa poderosa amante do primeiro Imperador, a quem influenciou de tal forma quesua família toda teria conquistado cargos e funções polpudas na Corte, elamerece outra análise. A mulher benfeitora e caridosa, a quem se deve – e isso aabsolve de qualquer outra mácula – a existência da Faculdade de Direito doLargo de São Francisco. A maioria dos poderosos à época repudiava a instalaçãode curso jurídico em São Paulo, considerada provinciana e cujo povo falava umportuguês muito inferior ao padrão considerado culto.

  

Domitilade Castro do Canto e Melo se divorciara em 21 de maio de 1824, de seu primeiromarido, o Alferes Felício Pinto Coelho Mendonça. Casara-se com ele aos quinzeanos e apanhava do marido, violento e dado aos vícios do álcool e do jogo.Chegou a esfaqueá-la e quis dela retirar a guarda dos três filhos, sem sucesso.O marido faleceu em 5 de novembro de 1833, em seu sítio de Piedade, emMarapicu. Depois do convívio com Pedro I, estava novamente livre. Viúva de seuprimeiro marido e sem qualquer condição de voltar a reatar com o ex-Imperador,que falecera em Portugal a 24 de outubro de 1834, no Palácio de Queluz.

 

Desdehavia muito, as famílias de Domitila e do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiarmantinham relações íntimas de amizade. O Brigadeiro era homem de grandefortuna. Dentre outras propriedades, era dono da conhecidíssima “Chácara doFerrão” e presidira a Província de São Paulo entre 1831 e 1834.


Duranteo calvário de Domitila, seja enquanto suportou as agruras de seu primeirocasamento, depois sua expulsão da Corte, Domitila recebera de Rafael Tobias deAguiar todo o paternal apoio. Tornou-se confidente dela e foi por ela nomeadoadministrador de todos os seus bens.

 

Casou-sea Marquesa de Santos com o Brigadeiro Tobias em 14 de junho de 1842, naParóquia de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba, exatamente durante a RevoluçãoLiberal, cujos primeiros combates foram travados nas proximidades de Campinas,no antigo bairro conhecido como “Venda Grande”, hoje chamado “Castelo”.

 

Apóso casamento, a “Chácara do Ferrão” também passou a ser conhecida como “Chácarada Marquesa”.

  

Emoutubro de 1857, faleceu o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. A partir daí, onúmero de comensais que costumava frequentar a “Chácara da Marquesa” cresceuconsideravelmente. Em todos os fins de semana, reunia-se ali a elite da nobrezapaulistana. Aos sábados era enorme a quantidade de coches e carros luxuosos queadentravam à chácara ou estacionavam em suas imediações.


Duranteao menos dez anos, foi a Marquesa uma grande anfitriã. Ali solucionava questõespolíticas, fazia assistência social, socorria os necessitados e apoiava asobras pias. Ela faleceu a 4 de novembro de 1867, dez anos após a morte dosegundo marido. Um de seus filhos, Brasilino de Aguiar e Castro, tambémconhecido como Brasilico, na partilha da herança que lhe coubera de direito,além de outras propriedades, tornou-se o único dono da antiga “Chácara doFerrão”. Ali residiu e viveu até sua morte, ocorrida em 1891. Como sóiacontecer, após a morte da mãe, a herdade passou a ser conhecida como “Chácarado Brasilico”.

 

Acaridade foi o alvo de todas as atividades desenvolvidas pela Marquesa desde oseu casamento com o Brigadeiro e, principalmente, a partir de sua viuvez. Poresse motivo, seu túmulo no Cemitério da Consolação ainda hoje é sempreornamentado com flores naturais e é ponto de constante peregrinação. Sua vidafoi muito mais do que a paixão recíproca mantida com o jovem e impulsivoprimeiro Imperador do Brasil.

 

José Renato Nalini é Reitor daUNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Geral daACADEMIA PAULISTA DE LETRAS.      





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